Começo de percurso

O texto a seguir reproduz e-mail enviado em dezembro de 2018 às organizações e pessoas que colaboraram com o Instituto no seu primeiro ano.

2018 foi o ano em que o Ibirapitanga começou a ganhar corpo e a conduzir sua missão como organização voltada à defesa de liberdades e da democracia no Brasil. Esse processo só foi possível a partir de inúmeras conversas, trocas, estudos, aprendizados e vivências por meio dos quais pudemos construir repertório e delimitar o campo de atuação sobre o qual pretendemos incidir. Essa mensagem é para agradecer a vocês que nos ajudaram a colocar essa iniciativa em pé, para compartilhar os nossos primeiros movimentos e celebrar alguns avanços nesse percurso.

Fizemos a opção de operar simultaneamente em três níveis: construção da institucionalidade do Ibirapitanga, definição das estratégias programáticas e identificação de iniciativas para financiamento. Essas três dimensões – que são naturalmente indissociáveis – estão ainda em construção, mas os aprendizados têm nos permitido tomar decisões já orientadas por uma experiência concreta de apoio a organizações. Neste ano, o Ibirapitanga aportou um total de R$ 7,2 milhões em 16 projetos, distribuídos nas duas áreas de atuação, alimentação e equidade racial, conforme apresentamos a seguir.

Alimentação

As doações realizadas em 2018 foram voltadas a contribuir para a redução no consumo de produtos ultraprocessados, ao controle do uso e consumo de agrotóxicos e ao estímulo à agroecologia.

Nosso ano começou com a realização do encontro “Desafios da Alimentação no Brasil de Hoje”, que aconteceu em Petrópolis no final de janeiro, reunindo 17 pessoas com experiências, trajetórias, projetos e interesses diversos, mas compartilhando a preocupação comum de pensar o lugar da alimentação no Brasil e no mundo. Com o desenho e a curadoria compartilhada com Ricardo Abramovay, o encontro foi um momento importante para aprofundar uma reflexão sobre o campo da alimentação no Brasil em sua multidimensionalidade e construir um painel atual dos desafios, das necessidades e das oportunidades de avanço neste campo. A síntese dessas análises estão apresentadas no relatório 10 questões sobre alimentação no Brasil de hoje, que organizou a discussão em desafios centrais em torno da alimentação que são a base da estratégia de atuação do Ibirapitanga nesta área.

O programa de Alimentação quer contribuir para a construção de um sistema agroalimentar saudável, justo e sustentável.

Foi sobretudo orientados por esse olhar que, a partir do segundo semestre, fizemos uma primeira rodada de doações no programa de Alimentação, voltado, portanto, à construção de um sistema agroalimentar saudável, justo e sustentável. Além de identificar e fortalecer organizações com atuação consistente no campo – ainda que em pontas distintas deste universo – a operação das primeiras doações também foi uma forma de adentrar de forma mais incisiva no campo e dar concretude à construção do portfólio. As 10 doações realizadas até agora foram direcionadas às três prioridades do programa nesse momento: (i) redução no consumo de ultraprocessados – com apoio ao Nupens/USP; (ii) redução no uso e consumo de agrotóxicos – com apoios a Agência Pública + Repórter Brasil, Greenpeace e Human Rights Watch; e (iii) ampliação do consumo de alimentos de base agroecológica – com apoios a AS-PTA e Taboa + Quitandoca + Rede Ecovida + Rede Povos da Mata.

Com escopos variados de atuação – situados entre fomentar e divulgar pesquisa aplicada de excelência, influenciar mudanças regulatórias e legislativas, fortalecer o ecossistema alimentar e suas articulações – as doações em Alimentação totalizaram R$2,5 milhões. Algumas dessas doações foram resultado de articulação com outros parceiros interessados em fomentar essas agendas, entre os quais o Instituto Alana, a Porticus, o Instituto Humanize, o Instituto Arapyaú e o Funbio. Essas parcerias que começaram a se estruturar, para além do co-investimento, têm sido espaços valiosos de interlocução, aprendizado e troca sobre os desafios comuns a serem enfrentados nessa área. Integram também o portfólio o apoio a três eventos realizados no Brasil – um em 2018 e dois a serem realizados em 2019 e 2020 – Agriculture and Food in Urbanizing Societies (UFRGS), Fruto – diálogos do alimento (Instituto Atá) e Terra Madre (Slow Food). Esses apoios compartilham o objetivo de apoiar a construção de um ecossistema alimentar que produza visões e percepções mais integradas sobre os efeitos da produção e consumo de alimentos.

O Ibirapitanga investiu, em 2018, R$ 2,5 milhões de reais em 10 iniciativas no campo da alimentação.

Neste mesmo sentido, realizamos em outubro, no Rio de Janeiro, o encontro “Para além do celeiro: Brasil e o futuro da alimentação saudável e sustentável” em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (ICS) e o Hoffman Centre for the Sustainable Resource Economy at Chatham House. O encontro, voltado a organizações financiadoras, dedicou-se a pensar a interconexão e interdependência entre alimentação e outras dimensões estruturais – como mudanças climáticas, meio ambiente, economia, saúde e cultura – e contou com a participação de organizações como CLUA, Porticus, Humanize, Alana, Arapyaú, Rizoma, Fundação Grupo Boticário, Instituto Serrapilheira, Oak Foundation e Instituto Desiderata.

Equidade Racial

O primeiro movimento do Ibirapitanga no combate ao racismo se deu por meio do apoio ao Fundo Baobá, contribuindo para o Programa Marielle Franco, dedicado a fortalecer o protagonismo político de mulheres negras no Brasil.

A estratégia em Equidade racial também teve como referência um encontro realizado em junho, em nossa sede no Rio de Janeiro, que nos colocou diante das principais questões ligadas ao enfrentamento ao racismo, apresentadas por lideranças negras cuja possibilidade de diálogo constituiu enorme privilégio. Os resultados – que podem ser encontrados no documento anexo – só foram possíveis graças à interlocução com Sueli Carneiro e Denise Dora, co-curadoras do encontro e orientadoras na construção desse percurso. Os principais eixos de trabalho – (i) representação simbólica e memória, (ii) representatividade política e (iii) antirracismo – estão longe de enfrentar a totalidade da questão racial no país, mas têm se afirmado como possibilidades para o desenvolvimento de um trabalho significativo e coerente nesse campo.

A maior doação e, certamente, uma das maiores realizações do Ibirapitanga este ano foi feita nessa área, em abril de 2018. Ao lado das fundações Ford e Open Society, o Ibirapitanga fez um apoio ao Fundo Baobá no valor de R$ 3,6 milhões para a criação de uma iniciativa em homenagem à Marielle Franco. O Baobá, criado com apoio da Fundação Kellogg em 2011, passa a ser responsável por conceber a iniciativa voltada a acelerar o protagonismo político de mulheres negras no Brasil. Por meio dessas doações, somadas ao aporte da Fundação Kellogg, o Fundo poderá operar em um novo patamar, ampliando o seu alcance e capacidade de investimento. Para o Ibirapitanga, foi fundamental que o primeiro passo nessa área tenha sido apoiar o fortalecimento do Fundo Baobá, instituição constituída com ampla legitimidade na sua missão de contribuir para a Equidade racial no Brasil, a partir de um projeto de longo prazo.

Em 2018 foi renovado o apoio ao Geledés Instituto da Mulher Negra, organização parceira desde os primeiros passos do Ibirapitanga. Este ano também concluímos um apoio à publicação de um livro sobre Sueli Carneiro, elaborado por Bianca Santana, a ser lançado pela Companhia das Letras em 2019, e um apoio à sétima edição da Festa Literária das Periferias (Flup), que teve sua programação inteiramente dedicada a autoras e autores negros. Em seu conjunto, foram doados R$ 4,4 milhões para o portfólio de Equidade racial em 2018.

O programa de Equidade racial terá como foco as questões de representação simbólica e memória, representatividade política e antirracismo.

Outras doações institucionais foram feitas para organizações que fizeram parte desse processo de constituição do Ibirapitanga: Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e Imazon – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. Para o Ibirapitanga, que se constitui como uma organização doadora (grantmaker), essas iniciativas reforçam a estratégia de ampliar as suas formas de financiamento para fortalecer sua capacidade de atuação, articulação e incidência sobre questões de interesse público.

Nos últimos meses, a equipe, que até então era composta por Andre Degenszajn e Iara Rolnik, ampliou-se com a chegada de Tonia Oliveira, responsável pela área administrativo-financeira, e Thales Vieira, gestor de portfólio. Elisa von Randow e Julia Masagão, responsáveis por nossa identidade visual, tem nos ajudado a nos conhecer melhor e a expressar isso publicamente. Os consultores Rogério Silva e Marcia Pregnolatto têm nos apoiado no refinamento das estratégias e construção de processos institucionais.

O atual cenário político do Brasil, em que prevalece no Estado um discurso e a prática de negação de liberdades, tem reforçado o que para nós já eram premissas fundamentais para o Instituto no que se refere à importância do fortalecimento da sociedade civil. Premissas que continuarão como base fundamental do nosso trabalho, não somente no contexto das agendas específicas, mas como princípio orientador. Nosso desafio constante como fundação brasileira deve ser o de contribuir para a criação e experimentação de novos modelos de intervenção e organização social e política a partir da sociedade civil. Para isso, não podemos estar sozinhos, mas com vocês e todos os parceiros que apostam nesse caminho e que acreditam na construção de uma sociedade melhor, fundada em outras bases. Nisso estaremos sempre juntos.