• Equidade racial
05.07.2020

À luz de Carolina Maria de Jesus, mulheres negras reverberam sua herança na Flup 2020

Da esquerda para a direita, a escritora Ana Maria Gonçalves, a filha de Carolina de Jesus, Vera Eunice de Jesus e Daniele Bernardino, da coordenação da Flup no Prêmio Carolina de Jesus da Flup, 2019. Créditos: Marina S. Alves e Thais Ayomide

Há aproximadamente 60 anos, uma das maiores obras da literatura brasileira estava prestes a ser lançada, carregando consigo a visão e escrita de uma mulher negra que desafiou a lógica imposta ao seu contexto racial, de classe e gênero. Atravessando o tempo, a obra “Quarto de despejo” e sua autora, Carolina Maria de Jesus, são homenageadas na “Flup – Festa Literária das Periferias” em sua 9ª edição, de 2020.

Apoiada pelo Instituto Ibirapitanga desde 2018, a festa literária agrega ações educacionais, formativas e celebrativas voltadas a fortalecer e estimular a produção cultural das periferias. A Flup se consolidou como uma importante iniciativa na cidade do Rio de Janeiro, ocupando locais de relevante representação histórica e simbólica para a população negra e das comunidades cariocas em suas edições mais recentes. Desde 2014, a Flup realiza o Prêmio Carolina de Jesus, para reconhecer pessoas cujas vidas foram alteradas pela literatura ou que contribuíram para a mudança da vida de outras por meio dela, o que formou caminho para a celebração do marco dos 60 anos de lançamento de “Quarto de Despejo”.

O atual contexto criou a necessidade de adaptação da programação típica e fortemente presencial da festa para esta edição de 2020. O setor de cultura como um todo sofreu forte impacto com as práticas de distanciamento social, que impediram aglomerações, e com a Flup poderia não ser diferente. Mas celebrar a obra e a história de Carolina Maria de Jesus, desafiou também o festival a revisitar e criar estratégias para adaptar sua programação e ainda ampliar horizontes, ainda que diante de dificuldades substanciais.

Em maio foi iniciado o ciclo “Flup Pensa 2020 – Uma revolução chamada Carolina”, a partir de uma série de debates on-line a serem concluídos em agosto, quando “Quarto de despejo” completa 60 anos de lançamento. A estreia contou com a participação da escritora Conceição Evaristo, da professora e filha de Carolina Maria de Jesus, Vera Eunice de Jesus,  e da jornalista Flávia Oliveira, alcançando mais de 20 mil visualizações nas mídias sociais da Flup até julho.

O caráter altamente transformativo que a Flup Pensa evoca ao reconhecer a revolução de Carolina Maria de Jesus em sua edição atual teve resposta à altura. As inscrições tiveram uma adesão de 500 mulheres negras de todos os estados, sendo 40% das inscrições com nível superior e 38% com mestrado ou doutorado.

Fazem parte do ciclo, oficinas de escrita criativa para mulheres negras de todo o país, paralelamente aos debates. O caráter altamente transformativo que a Flup Pensa evoca ao reconhecer a revolução de Carolina Maria de Jesus em sua edição atual teve resposta à altura. As inscrições tiveram uma adesão de 500 mulheres negras de todos os estados, sendo 40% das inscrições com nível superior e 38% com mestrado ou doutorado. Diante desse quadro, as turmas iniciais foram ampliadas para acolher ao todo 210 mulheres negras. O público de intelectuais negras transformou também o sentido de formação desse espaço, que ganhou contornos de articulação. 

Outra novidade da Flup Pensa em 2020 foi o diálogo para a criação de um novo grupo, com 30 mulheres catadoras de material reciclável da região do ABC paulista, que possuem um forte vínculo hoje com a história passada de vida de Carolina. Juntos, os grupos iniciais e este novo assumiram uma ousada, mas inspiradora empreitada atualizar “Quarto de despejo”. Cada uma selecionará a parte que mais lhe toca do livro e, à sua ótica, irá transpor para os dias de hoje. O conjunto de escritas resultará na publicação de um novo livro em celebração aos 60 anos da obra.

Na mesma lógica de ocupação digital, a Flup também lançou o “Minas pretas”, uma série de oito entrevistas com as slammers brasileiras que participaram da batalha poética (slam) organizada na Flup 2019 – mulheres negras também em diálogo com o legado de Carolina Maria de Jesus. A série foi produzida em parceria com o PretaLab em seu podcast PretaPod(e), ampliando também seu alcance.

As ações on-line permitiram a ampliação do campo de ação da Flup, que chega agora do Oiapoque ao Chuí e além mar, a todos os lugares do mundo onde exista uma pessoa que uma domine o português. À luz de Carolina Maria de Jesus, que transformou a adversidade em sonho para viver e nos fazer testemunhas de sua revolução pela escrita, a Flup e as mulheres negras herdeiras da autora se articulam em um cenário complexo para fazer emergir outras narrativas possíveis.

Nesse tempo, a tônica deve ser de coletividade, multiplicidade de mulheres negras na escrita e das estratégias de apoio às estruturas do campo, para que autoras negras possam ter sustentabilidade e reconhecimento em suas carreiras.

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