• Sistemas alimentares
21.12.2020

Cenários de sistemas alimentares: Gênero e Número trabalha com a matéria-prima para a mudança

Créditos: Mariana Rodrigues

É de amplo conhecimento o quanto 2020 foi um ano impactado pela pandemia de Covid-19. Muito desse conhecimento está no que foi possível ver e sentir a partir de seus impactos socioambientais e econômicos. Mas também nos diferentes esforços de mapeamento, levantamento e disponibilização de dados para aprofundar o que foi experienciado coletivamente, bem como aquilo que afetou particularmente alguns grupos e realidades.

A questão alimentar tem se apresentado como um dos mais importantes focos de conhecimento e ação sobre este o contexto. Os sistemas alimentares e sua organização hegemônica mundial estão relacionados com o ambiente propício à eclosão da pandemia, têm suas contradições e limites expostos ao máximo durante a crise sanitária ainda em curso e, em resposta a elas, afirmam-se as experiências que viabilizam futuros possíveis para produção, distribuição e consumo de alimentos.

Importante perspectiva a ser reforçada ao tratar de sistemas alimentares, o olhar a partir de gênero pode ser fundamental à compreensão de muitas dinâmicas inerentes a essa questão. Para isso, o trabalho atento da Gênero e Número se volta ao minucioso exercício com dados para fazer emergir as histórias que partem da experiência de gênero e oferecer este conhecimento mais aprofundado da realidade dos sistemas alimentares em tempos de pandemia.

A frente de trabalho compõe o projeto “Cenários e possibilidades da pandemia desigual em gênero e raça no Brasil”, conduzido pela organização com apoio do Instituto Ibirapitanga. O projeto prevê a produção e publicação de dados qualificados e contextualizados a partir de gênero e raça na pandemia de covid-19 no país,  envolvendo especialmente dois focos – trabalho doméstico e sistemas alimentares. No caso do primeiro foco, o objetivo é realizar desenho consistente, amparado por dados e narrativas jornalísticas, sobre trabalhadoras domésticas, seu trabalho e vida, especialmente no período da pandemia. Já com relação ao foco em sistemas alimentares, a partir de pesquisa, entrevistas e apuração para formar uma base de dados, a iniciativa buscará compreender como as questões de gênero estão refletidas nos processos de produção, cadeia de distribuição e de consumo de alimentos no ano impactado pela crise sanitária.

Uma conjunção de fatores, resultante de suas abordagens de trabalho, fez com que a Gênero e Número pudesse realizar esse tipo de iniciativa em 2020. Embasar discursos de mudança é o sentido final da atuação da organização, voltada a gerar, estruturar e repercutir informação qualificada, orientada por dados. Desde 2016, a Gênero e Número produz jornalismo que contribui para desnaturalizar abordagens sobre as questões de gênero, com perspectiva interseccional que inclui a discussão racial. Sua atuação busca criar pontes entre o jornalismo independente e o de amplo alcance, a partir da compreensão da mídia como um grande e único ecossistema, bem como de que a pauta dos direitos das mulheres não é exclusiva a um nicho midiático. Dessa forma, a Gênero e Número costura uma atuação reconhecida pela mídia, por grupos e organizações feministas, além de núcleos de pesquisa universitários e independentes.

A capacidade de articulação da Gênero e Número foi fundamental para gerar conhecimento sobre a realidade das mulheres durante a pandemia de Covid-19. Abordando desde os impactos ao protagonismo das mulheres no enfrentamento a eles a cobertura junto a AzMina, data_labe e ÉNOIS trouxe dados específicos sobre o contexto, não trabalhados por outras mídias que, por sua vez, passaram a replicar e citar esse conteúdo, a exemplo de Marie Claire, Folha de S. Paulo, Outras palavras e Nexo Jornal.

Aliada à trajetória da Gênero e Número, a cobertura especial “Covid-19” apresentou pistas sobre a necessidade de aprofundar o olhar a partir da perspectiva de gênero na questão alimentar, que se desdobrou em sua composição do projeto  “Cenários e possibilidades da pandemia desigual em gênero e raça no Brasil”.  Por meio da iniciativa, a Gênero e Número pretende construir uma análise original e referencial para o debate sobre gênero e alimentação, oferecendo as evidências necessárias de que o agravamento da crise alimentar agudiza as desigualdades de raça e gênero. As evidências serão disseminadas em uma dupla vertente: sugestão à grande mídia de uma abordagem mais aprofundada e conectada com a agenda dos movimentos, bem como referência que apresente conceitos, dados e casos ao trabalho dos mesmos.

Para a organização, o crescimento da pobreza no Brasil, agravado pela pandemia ampliou o debate sobre a pauta da segurança alimentar, discutida principalmente partir da insegurança no contexto atual. A proposta da Gênero e Número é entender o impacto das crises na alimentação em famílias chefiadas por mulheres, por ocuparem lugar de protagonismo nesse momento do debate. Além da discussão sobre insegurança alimentar, a organização abordará a desestruturação na Política Nacional de Alimentação e Nutrição e posterior redesenho, pensando sobre os impactos na vida das mulheres.

A resistência, a exemplo das redes de agroecologia em seus formatos rurais e urbanos, a distribuição auto-organizada de alimentos e as novas lideranças que surgem com discurso político relacionado à alimentação são apresentadas como contraponto, tendo como base, o acúmulo do debate feminista.

Na atual fase do projeto, a organização realizou um diagnóstico a partir de mapeamento de pessoas atuantes no campo e de pesquisa de literatura. No grupo que participou do mapeamento estão pesquisadoras e mulheres feministas que têm se dedicado ao debate da alimentação, organizações e coletivos. Com este diagnóstico,  foram definidos os grandes temas do foco em sistemas alimentares: “Alimentação na pandemia: números da crise”; “Alimentação na pandemia: redes e novas soluções”; “Produção alimentar: meios e condições das mulheres”; “Distribuição: condições das mulheres”; e “Porta-vozes do ativismo e do mercado”. Alguns dos temas incluirão análise sobre questões raciais.

Nesse novo esforço, conectado à urgência de inovadores e apurados olhares aos sistemas alimentares, Gênero e Número visibilizará as histórias ainda pouco conhecidas da pandemia de Covid-19. É nos dados que elas estão contidas e a possibilidade de descompactá-los, revelando as vidas neles presentes, afirma seu caráter enquanto matéria-prima da invenção de caminhos para mudança deste cenário.

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