• Sistemas alimentares
05.03.2021

O futuro da alimentação em debate: entrevista com Ruth Richardson

Créditos: Global Alliance for the Future of Food

O ano de 2021 inicia com a questão alimentar em franco debate, ocupando pautas de mobilizações globais. Nesta entrevista, Ruth Richardson aborda o contexto, apresenta a Global Alliance for the Future of Food, seu propósito e o trabalho que vem desenvolvendo, bem como traz perspectivas de como organizações brasileiras podem se engajar na discussão alimentar.

Ruth Richardson é diretora executiva da Global Alliance for the Future of Food (Aliança Global pelo Futuro da Alimentação), uma aliança estratégica de fundações filantrópicas, como Instituto Ibirapitanga e outras ao redor do mundo, que trabalham juntas para transformar os sistemas alimentares globalmente. Ruth adiciona à atuação da aliança e suas iniciativas mais de 25 anos de relevante experiência em sistemas alimentares a partir de uma trajetória voltada ao pensamento sistêmico e a estabelecer processos inovadores e complexos. Antes de assumir a direção da aliança, Ruth foi diretora da Unilever Canada Foundation, presidente fundadora da Canadian Environmental Grantmakers’ Network, fundadora e presidente do Small Change Fund e a primeira diretora de meio ambiente da Fundação Metcalf.

Twitter: @RuthOpenBlue / @futureoffoodorg

Qual é o propósito da Global Alliance for the Future of Food e como ela funciona?

Ruth Richardson: A Global Alliance for the Future of Food é uma aliança estratégica de fundações filantrópicas que trabalham juntas para transformar os sistemas alimentares globalmente, agora e para as gerações futuras. Como uma aliança estratégica, nossa missão é impulsionar nossos recursos e redes com foco em transformar os sistemas alimentares para maior sustentabilidade, segurança e equidade.

O que significa falar em “sistemas” alimentares?

Ruth Richardson: Quando falamos sobre sistemas alimentares, nos referimos a todas as várias interconexões na forma como os alimentos são produzidos, processados, embalados, distribuídos, cozidos, consumidos, desperdiçados, compostados e até celebrados. Os “sistemas alimentares” traduzem as inúmeras maneiras pelas quais os alimentos impactam nossa saúde, nosso bem-estar, tradições espirituais e culturais, resiliência econômica, direitos humanos, biodiversidade, saúde planetária e assim por diante. Também englobam a reflexão sobre os atores do sistema alimentar e a necessidade de envolver da filantropia a agricultores, de pesquisadores a povos indígenas, do setor privado a legisladores governamentais. Todos os atores devem estar envolvidos em pé de igualdade na transformação do futuro dos alimentos.

Quem faz parte da Global Alliance?

Ruth Richardson: A Global Alliance é composta, principalmente, por fundações filantrópicas privadas de todas as formas e tamanhos, com parceiros de todo o mundo. Nossos membros trabalham com questões e em escalas que vão desde o empoderamento das mulheres na África Ocidental, às cadeias de abastecimento em grande escala na América do Sul e a abordagem das causas das mudanças climáticas.

A riqueza e o poder da Global Alliance é sua diversidade de membros, constituindo uma “grande tenda”, e a abordagem democrática que abre espaço para uma multiplicidade de vozes.

Para você, qual é o principal papel das fundações na contribuição para o “futuro da alimentação”? E como a Global Alliance apóia esse trabalho?

Ruth Richardson: Todos nós temos um papel a cumprir para garantir o futuro dos alimentos e de nosso planeta. As fundações têm um papel importante a desempenhar, apoiando pessoas e iniciativas na linha de frente da insegurança alimentar ou sanitária e financiando projetos e empreendimentos que têm o potencial de trazer mudanças, mas que ainda precisam chegar à larga escala. Por meio da Global Alliance, as fundações membro se reúnem para compartilhar percepções, conhecimento e experiência, trabalhando juntas para alcançar um impacto maior do que se atuassem apenas como organizações individuais. A aliança permite que este consórcio de fundações se comunique e incida no cenário global. A Global Alliance não é uma organização doadora.

Desde o ano passado, a Global Alliance tem desenvolvido sete chamados à ação, que identifica como “caminhos cruciais para criar um futuro da alimentação melhor”. Por que a aliança desenvolveu esses chamados e como eles serão promovidos?

Ruth Richardson: A longo prazo e por meio dos nossos membros, parceiros, aliados e aqueles com quem temos colaborado nos últimos oito anos, cada um dos chamados à ação abordarão as estruturas subjacentes cruciais que impedem a transformação tão necessária dos sistemas alimentares. De dietas saudáveis e práticas de produção resilientes, à governança e economia que impactam fortemente toda a cadeia de valor, essas sete chamadas à ação difundem os caminhos fundamentais para a mudança dos sistemas alimentares.

Como as organizações brasileiras podem aprender com as boas práticas conectadas aos chamados à ação em todo o mundo? Você pode nos dar exemplos?

Ruth Richardson: Por meio de nosso programa Beacons of Hope (Faróis de Esperança), que está interconectado com os chamados à ação, as organizações brasileiras podem descobrir uma riqueza de informações sobre os processos de transformação de sistemas e aprender diretamente com organizações ou iniciativas ao redor do mundo. Visite o site para saber mais aqui. 

Em 2021, a ONU realizará sua primeira Cúpula sobre Sistemas Alimentares. O que podemos esperar desse evento? Quais são os principais desafios e oportunidades adiante? E como as organizações brasileiras preocupadas com o futuro da alimentação podem se engajar nesse processo?

Ruth Richardson: A Cúpula sobre Sistemas Alimentares das Nações Unidas é uma das muitas oportunidades deste ano para mudar as políticas, práticas e narrativas que moldam o futuro da alimentação. Tem como objetivo ser uma Cúpula de “pessoas e soluções”, buscando representação diversificada e contribuições de todas as partes da sociedade. Da mesma forma, os chefes de Estado serão envolvidos para concordar com um documento de “resultados” de alto nível. Para nós, este momento é uma oportunidade para inspirar e catalisar ações em torno da questão da transformação dos sistemas alimentares, defendendo um futuro da alimentação que seja resiliente, sustentável e verdadeiramente equitativo. Para as organizações brasileiras, há uma infinidade de maneiras pelas quais elas podem se envolver formalmente no processo, desde hospedar diálogos independentes até enviar ideias para soluções para os trilhos de ação. Saiba mais aqui.

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