• Equidade racial
06.07.2021

Quatro lideranças femininas negras projetam futuros no Programa Marielle Franco

Dandara Rudsan

DA ESQUERDA PARA A DIREITA: Ana Crystina Pereira-coord administrativa, Fátima Fonseca-núcleo de mulheres negras do GMMQ,Janine -coord de comunicação, Marli Soares -fundadora do GMMQ, Aniely Mirtes-Coord financeira, Adi Targino-fundadora do GMMQ e Maria Eduarda-Nucleo de Juventude do GMMQ.

Jenair

Monalyza Alves Créditos: Macário

Um paradoxo marca as vivências de mulheres negras. Submetidas às formas mais profundas e sofisticadas violências por uma sociedade estruturada no racismo e no sexismo, são elas as protagonistas no pensamento e prática de processos inovadores de transformação para toda a sociedade. 

A ativista Angela Davis pontua que quando as mulheres negras se movimentam, movimentam toda a sociedade. Isso se dá porque são sua base organizativa, seja nos movimentos dos níveis mais particulares, que fazem um membro da família se alimentar, estudar e chegar à universidade; ou nos níveis mais coletivos por questionarem e apontarem novos caminhos para movimentos, pautarem ações políticas e conseguirem mobilizar novos setores da sociedade para o antirracismo.

Com foco no enfrentamento às assimetrias de gênero e raça, que hoje comprometem a democracia e o desenvolvimento no Brasil, o Baobá – Fundo para equidade racial lançou em 2019 o “Programa de aceleração do desenvolvimento de lideranças femininas negras: Marielle Franco”, apoiado por meio de uma ação de coinvestimento entre o Instituto Ibirapitanga, a Fundação Kellog, a Fundação Ford e a Open Society Foundations.

O objetivo do Programa Marielle Franco é garantir a presença de mais mulheres negras em espaços de poder e ampliar seu papel na luta antirracista. O programa se inspira no legado de Marielle Franco, vereadora pela cidade do Rio de Janeiro com uma agenda voltada à defesa de liberdades e à equidade racial e de gênero, brutalmente assassinada em março de 2018. 

Em 5 anos, o programa pretende capacitar política e tecnicamente 120 novas líderes e fortalecer 20 organizações, grupos e coletivos por meio de bolsas, formação política, coaching e criação de redes. Na primeira seleção, mais de 1000 mulheres e cerca de 200 organizações, grupos e coletivos, se interessaram pelos editais. Cerca de 500 projetos foram analisados, para chegar a 63 lideranças e 15 organizações selecionadas.

As lideranças femininas apoiadas pelo Programa Marielle Franco expressam a diversidade de mulheres negras que estão dando continuidade, pensando e possibilitando novas existências nas diferentes regiões e espacialidades, na educação, nas artes, na política institucional, na tecnologia, na comunicação, na ciência, entre outros campos.

Conheça quatro participantes, os projetos que idealizaram e estão desenvolvendo por meio do Programa Marielle Franco, além de suas visões sobre liderança feminina negra:

Dandara Rudsan
Projeto: Atitude TRANSversal: Mulher preta transexual tecendo redes e ampliando horizontes

O foco central do projeto é a criação e fortalecimento das redes de luta e resistência de mulheres negras e LGBTQIAP+ na Amazônia brasileira e na América Latina, assim como o aperfeiçoamento das habilidades da liderança na promoção do diálogo e mediação de conflitos.

Dandara afirma que a inspiração para o projeto parte da importância de conectar, visibilizar e fortalecer as lutas das mulheres negras e LGBTQIAP+ amazônidas que lutam na defesa da terra e do território.

Sobre a participação na iniciativa, ela afirma que:

“O programa está sendo fundamental para a luta das mulheres negras e LGBTI+ amazônidas neste contexto de desmonte das instituições democráticas. Por meio da Rede de Cooperação ‘Pretas & Coloridas’ e do laboratório de ciberativismo ‘@ZarabatanaINFO‘, frutos do projeto, nós pudemos nos conectar para trocas de experiências e aprendizados acerca das estratégias de comunicação, formações e resistência nos cenários de luta política”.

Para Dandara, “ser uma liderança feminina negra é ser parte de uma estratégia ancestral para a libertação do povo preto e para livrar a sociedade de todos os tipos de opressão.”

Grupo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais Maria Quitéria – Paraíba
Projeto: Equidade sim, racismo não!

O projeto tem como principal objetivo fomentar lideranças negras, a partir de sua atuação no grupo, que também espera fortalecer sua ação em espaços políticos de poder e decisão social e na comunidade local. O processo se dá por meio de cursos, capacitações e rodas de conversas virtuais sobre planejamento estratégico, governança, captação de recursos, democracia profunda e segurança digital, entre outros. Dessa maneira mulheres negras LBT estão sendo capacitadas a atuar com advocacy em rede e na candidatura de mulheres do grupo em cargos eletivos.

Aniely Mirtes Soares Alves, uma das lideranças do grupo, conta que o projeto foi idealizado para promover avanços em diferentes frentes para o grupo, na formação, para uma melhor atuação social e no fortalecimento institucional.

“Após 19 anos da fundação deste grupo só agora, estamos tendo o devido fortalecimento institucional que uma organização social com a história e a trajetória do Grupo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais Maria Quitéria precisa e merece. Devemos esse avanço ao Programa Marielle Franco”, afirma Aniely.

Para ela, o significado de ser uma liderança feminina negra é “antes de mais nada romper a bolha social da branquitude hetero-patriarcal que tenta nos ordenar diuturnamente e assumir com a força ancestral a nossa identidade feminina e negra”.

Jenair Alves
Projeto: Docência, formação e produção acadêmica – novas epistemologias negras e femininas

O objetivo do projeto é enegrecer a Psicologia a partir da potencialização da carreira acadêmica, política e profissional, com aprendizados sobre gênero, raça, classe e geração compartilhados via universidade, ruas e redes. Um dos pilares desse processo está voltado a contribuir para a permanência de uma mulher negra, de origem popular, militante do movimento negro, no doutorado em Psicologia da UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O projeto se constitui como espaço estratégico importante na consolidação da pesquisadora, acadêmica e psicóloga negra. 

Para Jenair, “a Psicologia, apesar dos avanços nas discussões, estudos, pesquisas e formação, ainda é deficiente quanto a consideração dos efeitos psicossociais do racismo na vida das pessoas brancas e negras”. A experiência de participação política na trajetória de Jenair também é elemento importante neste projeto: “a pauta sobre os homicídios de jovens sempre esteve presente nos movimentos sociais em que atuei e atuo, mas há um tempo tenho reparado na demanda do acesso à justiça e a luta que mães e familiares têm feito em busca da memória e verdade sobre a morte de seus filhos e filhas. Investigar sobre acesso à justiça e a saúde mental das mulheres e famílias enlutadas foi o ponto em que propus interseccionar Psicologia, raça, gênero, classe e juventude” explica a liderança. O projeto  se utiliza da metodologia de estudo-denúncia, abordando, a partir da perspectiva regional do Nordeste brasileiro, a ininterrupção entre o luto da perda e o “luto”, do verbo lutar,  referindo-se ao processo de reivindicação por justiça pelos familiares, sobretudo as mulheres negras. 

“O Programa Marielle Franco tem contribuído para o intercâmbio de ideias e práticas entre mulheres negras que militam, atuam e pesquisam no mesmo campo, e tenho aproveitado para aprender e firmar parcerias com as mulheres que têm a saúde mental, o acesso à justiça, a democratização do direito, a organização política, o enfrentamento ao genocídio/necropolítica e o abolicionismo penal como propósitos de vida”, conta Jenair.

Ela coloca também que, a partir do foco em desenvolvimento individual, o programa contribui para a sustentabilidade da participação na pós-graduação, como por exemplo no trabalho de campo, na aprendizagem de língua estrangeira e na participação nos espaços organizativos de mulheres negras.

Jenair acredita que ser uma liderança feminina negra “é guardar os segredos da comunicação com o futuro ancestral, é fazer frente às problemáticas, apontar soluções, enquanto compartilha com aquelas e aqueles que estão ao redor, na luta pelos mesmos propósitos de luta, vida e (re)existência”.

Monalyza Alves
Projeto: De uma para muitas – Transformação, comunicação e formação em gestão de políticas públicas

O projeto visa fortalecer a política pública, investindo na formação de pessoas que tenham interesse em conhecer e aplicar a perspectiva racial, de gênero e dos Direitos Humanos, na gestão pública. A iniciativa disponibilizará de forma online um curso debatendo sobre os temas e propondo estratégias para a gestão pública.

Monalyza, que trabalhou por 10 anos no Governo do Estado do Rio de Janeiro, sobretudo com as pautas de Direitos Humanos e Promoção da Igualdade Racial, conta:

“Percebi que grande parte dos atores envolvidos na formulação de políticas públicas, não conhecem ou não sabem como aplicar a legislação vigente, e ainda, têm dificuldades em reconhecer como primordial inserir estas perspectivas em suas linhas de atuação, e assim, promover a equidade” explica a liderança.

De acordo com Monalyza, o Programa Marielle Franco possibilitou que ela conseguisse atualizar seus conhecimentos sobre gestão pública, principalmente no gerenciamento de projetos e captação de recursos. Através de uma metodologia desenvolvida por ela, será disponibilizado um curso virtual sobre como aplicar a perspectiva racial e de gênero na formulação de políticas públicas.

“Ser uma liderança feminina é um desafio constante. É buscar formas de compartilhar e receber conhecimentos para construir um amanhã, justo e equânime”, conclui Monalyza.

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