• Equidade racial
06.07.2021

Reinvenção política e coletiva de mulheres negras em nova geração

Jaqueline Fernandes, diretora geral do Instituto Afrolatinas Créditos: Mídia Ninja

Créditos: Wellington Silva

Os anos 2000 e 2010 foram marcados, em curva crescente, pela profusão de movimentos e nascimento de novas organizações, que, beneficiando-se das novas tecnologias, promovem a renovação e continuidade do pensamento e ação das mulheres negras no Brasil. Exemplos dessa realidade, Instituto Afrolatinas e Blogueiras Negras, muito além de serem notáveis jovens organizações, representam pontos de partida de uma nova geração de movimentos, herdeira direta do fortalecimento da ação coletiva de mulheres negras entre as décadas de 80 e 90. Desde seu início, a atuação dessas duas organizações aglutinou e ampliou a capacidade e alcance das iniciativas mais recentes e inovadoras de mulheres negras.

O Afrolatinas nasceu como um coletivo de jovens negras periféricas do Distrito Federal, para dar vida, em 2008, à primeira edição do Festival Latinidades, uma plataforma de multilinguagens que impulsiona as trajetórias de mulheres em diferentes campos de atuação. Hoje considerado o maior festival de mulheres negras da América Latina é um importante espaço de empoderamento, atuando com formação política; qualificação técnica e intelectual; oportunidades no mercado de trabalho, em especial na cadeia produtiva da cultura e das artes; e fortalecimento de redes. Ao longo de 13 anos, o Afrolatinas atuou em articulações com Geledés, Criola, CEERT, Rede de Mulheres Afro-latino-americanas, Afro-caribenhas e da Diáspora, Instituto Cultural Feira Preta, AMNB  — Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, Conajira — Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial, Associação Nacional de Profissionais do Audiovisual Negro, Ficine — Fórum Itinerante de Cinema Negro, entre outras, atualmente também integrando a Coalizão Negra por Direitos.

Carro chefe da atuação do Afrolatinas, o Festival Latinidades, foi diretamente responsável pela divulgação e fortalecimento, no Brasil, do 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela, tendo o instituto atuado para a criação e sanção, em 2014, da data como lei. Além do festival e seu impacto em uma nova cena cultural, artística e política das mulheres negras, o Afrolatinas atua na articulação e fortalecimento de diferentes saberes, nas artes, na cultura e na educomunicação. Atualmente Instituto Afrolatinas, a organização se utiliza de metodologias disruptivas para atuar nos temas do empreendedorismo, geração de renda, produção, gestão cultural, políticas públicas e empoderamento de mulheres e meninas negras em especial.

Apesar de desafiador, o ano de 2020 foi de expansão das ações do Afrolatinas. O instituto realizou a 13ª edição do Festival Latinidades em formato online e o Latinidades Pretas, ação colaborativa entre Afrolatinas e Feira Preta, de contribuição para a redução dos impactos econômicos da pandemia. Formou junto a seis outras organizações a Coalizão Éditodos, para dar suporte a empreendedoras negras periféricas no nível nacional. Neste ano, a organização também estabeleceu sua sede — a Casa Afrolatinas — ambiente de cibercultura com oferta de cursos, espaço e operações tecnológicas na comunidade  do Varjão, periferia do Distrito Federal.

Em 2021, o Afrolatinas irá voltar seu suporte a 150 empreendedores criativos LGBTQIAP+ e está agora às vésperas da 14ª edição do Festival Latinidades, apoiada pelo Ibirapitanga, tendo a “Ascensão negra” como tema. O conceito faz parte de uma trilogia iniciada em 2020, quando o Latinidades abordou “Utopias negras”. Fundadora do Instituto Afrolatinas e do Festival Latinidades e diretora geral da organização, Jaqueline Fernandes comenta que a intenção foi “alimentar as utopias negras como forma de abrir caminhos, de negar o imaginário racista e o espaço que ele quer nos reservar na sociedade.”

Jaqueline conta que o tema de 2021 segue a mesma linha:

“Na minha forma de ver, o tema Ascensão negra se conecta com o momento em que estamos vivendo pela necessidade de seguir exercitando nosso imaginário, refletir e questionar o que significa ascender e prosperar em um sistema fundamentado e sustentado pelo racismo estrutural. Queremos trazer junto com o tema perguntas como: O que é ascensão? Mobilidade social e econômica? Conexão ancestral? Saúde holística? Espiritualidade? Destravar memórias de sucesso e ocupar novos espaços? Olhar para dentro? Todas as respostas podem conviver em harmonia e até se complementar.”

Ainda de acordo com Jaqueline, a trilogia propõe o exercício de descolonizar imaginários. A série se concluirá em 2022, quando o marco do 25 de julho completa 30 anos e o Festival Latinidades 15, uma temporalidade que confirma a iniciativa como o meio de um caminho criado.

Na virada da década de 2000 para a de 2010 foi criada Blogueiras Negras, comunidade comprometida com as questões de gênero e raça, que reúne e estimula a produção de conteúdo para veículos de comunicação independentes produzidos por e para mulheres negras. Lançada em 2013, por Charô Nunes, de São Paulo, e Larissa Santiago, da Bahia e residente em Pernambuco, Blogueiras Negras atualmente reúne produções com 400 autoras e 1.300 textos. É fruto da Blogagem Coletiva da Mulher Negra, iniciativa organizada para motivar a produção de textos de mulheres negras, a princípio relacionados a duas datas — o 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra e o 25 de Novembro, Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres. Este processo revelou a existência de uma vasta produção de textos realizada por mulheres negras, antes dispersa na internet.

A partir da criação de Blogueiras Negras, essa produção ganhou um espaço de visibilidade, preservação e fomento à memória, desdobrando-se na construção de redes colaborativas de comunicação conduzidas por e para mulheres negras com diversas organizações.

Assim, Blogueiras Negras hoje compõe diferentes redes, como Me Representa, Rede de Ciberativistas Negras, Rede de Mulheres Afro Latino-americanas, Afrocaribenhas e da Diáspora, Caribenhas e da Diáspora, Rede de Mulheres Negras do Nordeste, Rede Transfeministas de Cuidados Digitais. Recentemente a organização participou da articulação e do lançamento do Manifesto da Mídia Negra, que envolveu organizações deste campo em todo o país.

A atuação de Blogueiras Negras se espraiou, extrapolando o espaço circunscrito ao ciberativismo para dialogar com a pesquisa acadêmica, integrando grupos de pesquisa sobre economia política da comunicação e também da cultura digital.

Desde 2019, Blogueiras Negras conta com apoio do Ibirapitanga voltado a fortalecer a comunicação como contribuição dos movimentos de mulheres negras nos processos emancipatórios brasileiros. A partir do apoio, Blogueiras Negras atuou no seu desenvolvimento institucional, para consolidar sua autonomia, posicionando-se como uma ferramenta de mídia negra que colabora para a preservação do legado político das mulheres negras brasileiras.

Refletindo sobre a estrada percorrida e esse novo momento, as Blogueiras Negras afirmam:

“Nós completamos em 2021 oito anos de existência. Dentro desse tempo, nós havíamos chegado até aqui apenas com nossos esforços, recursos humanos e financeiros. Pela primeira vez apoiadas [por Ibirapitanga, entre outras organizações], conseguimos construir e consolidar um planejamento voltado a construir Blogueiras Negras como o legado de comunicação do movimento de mulheres negras.”

Elas pontuam ainda a importância do fortalecimento institucional para o enfrentamento sistemático ao racismo, entendendo suas demandas específicas enquanto parte do avanço do movimento de mulheres negras.

Em 2020, a organização colaborou com os processos de comunicação sobre a pandemia, realizando a série a temporada do BNcast “Coronavírus nas Periferias” em parceria com Rádio Aconchego. No mesmo ano, realizou os minicursos online Autonomia&Memória, que busca evidenciar o papel da comunicação nos movimentos de mulheres negras. As lives de formação contaram com a participação de Ana Flávia Magalhães, Rosane Borges, Aline Djokic, Natália Neris e Thiane Neves Barros.

Desenvolvendo a experiência de produção de podcasts, Blogueiras Negras realizou a temporada “O legado da comunicação no movimento de mulheres negras” do BNcast, com 8 episódios de diálogos com mulheres essenciais na construção e difusão de outras narrativas.

Como elos entre gerações de movimentos, Instituto Afrolatinas e Blogueiras Negras, em sua recente trajetória, carregam e reinventam a tradição de atuação política coletiva de mulheres negras. Ao construir para ela novos sentidos, ampliam horizontes de existência feminina e negra, num exercício constante de imaginação e prática de uma outra sociedade.

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