• Sistemas alimentares
27.08.2021

Por trás do alimento: entrevista com Ana Aranha e Natalia Viana

Ana Aranha (à esquerda) e Natalia Viana Créditos: José Cícero / Agência Pública (foto à direita)

O projeto “Por trás do alimento” é fruto de parceria entre Agência Pública e Repórter Brasil. Criada no final de 2017, a iniciativa realiza cobertura dedicada ao tema dos agrotóxicos, por meio de reportagens investigativas e conteúdo noticioso. A parceria entre os dois veículos, inédita, descortina o grave problema em torno dos agrotóxicos e apresenta em forma de denúncia seus impactos para os sistemas agroalimentares e, consequentemente, à saúde dos cidadãos que lidam diretamente com os produtos ou indiretamente, por meio da alimentação contaminada. 

O Instituto Ibirapitanga entrevistou Ana Aranha, repórter investigativa e documentarista da Repórter Brasil e Natalia Viana, co-diretora e editora da Agência Pública, coordenadoras do projeto. A conversa abordou as ações centrais da parceria e os desafios de pautar a questão dos agrotóxicos em um período de ampliação do negacionismo e ampla influência do agronegócio nas decisões políticas do governo federal.

Ibirapitanga: A Pública e a Repórter Brasil construíram e consolidaram um caminho para o crescimento do jornalismo investigativo alternativo ao hegemônico no país. Especialmente a respeito da abordagem aos agrotóxicos, contem-nos como cada uma das agências encontrou e começou a trabalhar com esse tema. 

Ana Aranha: A contaminação por agrotóxicos sempre foi um problema recorrente na cobertura da Repórter Brasil, em especial em investigações sobre violações trabalhistas e impactos socioambientais do agronegócio. A partir de 2015, nos demos conta que a questão avançava  de modo peculiar, e despontava como um tema transversal que merecia uma atenção mais detida. A partir de então, passamos a conversar com a equipe da Pública para pensar em um  time de jornalistas investigativos que pudessem se debruçar sobre o tema a longo prazo. Uma de nossas inspirações foi o famoso caso do Spotlight, núcleo investigativo do Boston Globe, em que jornalistas tinham a chance de se aprofundar  em uma investigação por longos períodos de tempo. 

Natalia Viana: A Pública teve contato com o tema enquanto cobria conflitos de terra no interior do país e na Amazônia. Casos de intoxicações, uso de agrotóxicos como arma química e do desmonte de proteções que antes existiam contra as aprovações desenfreadas chamaram nossa atenção para o tema. Sabendo que a Repórter Brasil também fazia essa cobertura, nos reunimos para desenhar um projeto consistente e permanente.   

Ibirapitanga:  “Por trás do alimento”, conduzida pelas duas agências, tem sido uma importante estratégia de comunicação para visibilizar conflitos de interesses e violações de direitos no uso de agrotóxicos no Brasil. Como surgiu a ideia da iniciativa? Quais percepções do contexto levaram ao seu desenho?

Ana: Além da avaliação de que este era um problema que passaria a afetar mais e mais a vida dos brasileiros, também partimos da percepção de que havia uma grande demanda de informação sobre agrotóxicos que não estava sendo atendida pela imprensa como um todo. As matérias sobre este assunto estavam gerando mais audiência e engajamento do que outras e, em alguns casos, gerando picos totalmente fora da curva da nossa organização. Isso nos fez perceber que há uma alta demanda por mais informações sobre o tema. Avaliando, então, a cobertura que era feita na época, achamos materiais muito parecidos. Sempre com as mesmas fontes e com pouca profundidade. Chegamos à conclusão de que os jornalistas estavam com dificuldade de entender as complexidades da discussão, limitando-se a fazer uma cobertura que sempre reproduzia as mesmas ideias. A partir daí, surgiu a necessidade de uma equipe mais especializada, que pudesse dar passos além, em termos de análise e novas descobertas, após um período de familiarização com o tema.

Natalia: A ideia surgiu da constatação de que o tema dos agrotóxicos é complexo e exige uma cobertura especializada e interdisciplinar.

Compreendendo que seria importante um projeto de longo prazo e de fôlego, que construísse uma expertise ao longo do tempo, mas que buscasse impacto, eu e a Ana começamos a conversar em 2016 para formularmos um projeto conjunto. O site Por Trás do Alimento foi lançado no final de 2017, com apoio do Instituto Ibirapitanga e do Instituto Alana.

Ibirapitanga:  Após quatro anos da iniciativa, como vocês percebem que as investigações sobre agrotóxicos têm contribuído ao aumento do conhecimento desse tema enquanto uma importante dimensão da forma pela qual os sistemas alimentares estão estruturados no Brasil?

Ana: Na minha avaliação, nós conseguimos antecipar e estar prontos para responder a uma demanda por informações que aumentou muito com o governo Bolsonaro, principalmente à aprovação recorde de novos produtos agrotóxicos. O avanço do lobby ruralista se deu mais no Executivo do que no Legislativo, ao contrário do que ocorria antes. Nossa equipe correu atrás dessa mudança para monitorar as novas faces do lobby. Infelizmente, o jornalismo não foi uma ferramenta de pressão forte o suficiente para impedir o desmonte do processo de regulação dos agrotóxicos. Mas atuamos para, ao menos, ajudar a denunciar e pressionar contra o desbanimento de um produto extremamente tóxico, o paraquate. Infelizmente, a realidade que noticiamos é de crescimento constante do uso de produtos altamente tóxicos em culturas cada vez mais diversas. Além de detectar o uso de agrotóxicos proibidos para certas culturas, estamos dando continuidade ao nosso papel, manter a sociedade e as lideranças informadas.

É triste dizer isso, mas muitas vezes vejo algumas de nossas publicações funcionam quase como um registro histórico: vamos registrar com todas as letras que isto está acontecendo, para que no futuro possamos pressionar por algo diferente. Outras conseguem impactos mais imediatos e pontuais, mas, no geral, minha percepção é de que estamos vivendo um grande retrocesso nessa área.

Natalia: Sem dúvida, não só o assunto entrou na pauta da imprensa e na agenda política do Congresso, como as reportagens do Por Trás do Alimento têm sido usadas por prefeituras, casas legislativas e órgãos judiciais para ampliar a fiscalização e o controle sobre essas substâncias. É usado ainda nas redes sociais, podcasts e por grupos de ativistas pela alimentação saudável.   

Ibirapitanga: Além de denunciar as problemáticas em torno do uso de agrotóxicos, um conjunto de produtos de mídia tem mostrado o papel da iniciativa de informar a atuação da sociedade civil na defesa de direitos e na tomada de decisão de gestores públicos. Podemos citar, nesse sentido, o Mapa dos agrotóxicos na água, o Robotox e reportagens como a que revelou contaminação de solo e água em Minas Gerais pelo aterro de agrotóxico proibido. Esses seriam os principais exemplos de produtos midiáticos com esse foco? Vocês citariam outros? Que conquistas importantes a iniciativa teve com eles? Se puderem, gostaríamos de ouvir também como essas informações chegam a tomadores de decisão.

Ana: Sim. Acho que, além destas, eu citaria também as denúncias sobre o paraquate, série de matérias que teve um impacto importante. Graças à nossa denúncia, a Unicamp suspendeu uma pesquisa que estava sendo usada como peça central do lobby para reverter a proibição do Paraquate. 

Outra matéria teve impacto importante para o longo prazo, pressionando o Ibama a aumentar a sua transparência. Uma semana após a publicação da matéria “Governo não divulga dados de 72% dos agrotóxicos, protegendo multinacionais”, o Ibama mudou sua política e publicou nota prometendo passar a divulgar dados sobre vendas de todos os agrotóxicos. Nossa matéria revelava que o Ibama censurava o volume de venda da maior parte dos agrotóxicos, beneficiando produtos concentrados nas mãos de multinacionais como Bayer, Syngenta e Basf. A mudança será verificada na próxima atualização dos relatórios de comercialização, estamos monitorando.

Por fim, a matéria sobre comunidades rurais que foram atingidas por agrotóxicos lançados de avião no Maranhão contribuiu para chamar atenção ao modo mais criminoso como estes produtos podem ser utilizados: como arma química em disputas de terra. Essa não foi a primeira e nem será a última reportagem que fizemos sobre este problema. Nos primeiros dias, a denúncia foi feita exclusivamente pelo nosso projeto e gerou grande repercussão, tanto nas nossas redes, quanto na home do portal UOL, que republicou nosso conteúdo. Poucos dias depois, uma equipe do governo do estado foi ao local investigar o crime e o assunto era pauta do Jornal Nacional.

Também gostaria de destacar duas matérias que foram um importante esforço de levar informação de qualidade a um público mais amplo, os consumidores dos alimentos. Tanto a matéria “Laranja, pimentão e goiaba: alimentos campeões de agrotóxicos acima do limite“, quanto a matéria “Anvisa não fiscaliza ‘lanche das crianças’, mesmo com presença de agrotóxicos em 60% dos alimentos ultraprocessados” trazem dados destrinchados de maneira simples. O objetivo foi traduzir os relatórios do governo e pesquisas feitas por parceiros para alcançar o maior número possível de leitores.

Ibirapitanga: “Por trás do alimento” avançou também na criação de redes e parcerias para a comunicação de denúncia sobre os agrotóxicos. Mais recentemente, a iniciativa passou a expandir parcerias internacionais. Como tem sido esse processo? Quais são as oportunidades e os aprendizados proporcionados por ele? 

Natalia: Tanto a Agência Pública quanto a Repórter Brasil têm parceiros internacionais que publicam as reportagens, dando maior alcance a elas. Como o tema dos agrotóxicos é algo  que interessa ao público internacional, tivemos reportagens publicadas em espanhol por jornais latinoamericanos, como sites GK (Equador), Interferência (Chile), Cuba em Resumo (Cuba) e até o El Diario (Espanha). ONGs internacionais também são parceiros tanto para publicar o conteúdo, caso da Business & Human Rights, quanto para fazer investigações conjuntas, como a ONG suíça Public Eye. 

Ibirapitanga:  Como vocês mencionaram,  uma de suas investigações descobriu o sigilo sobre a divulgação dos dados de 72% de agrotóxicos usados no Brasil e, por meio de uma reportagem, influenciou a decisão tomada pelo Ibama de divulgar o volume de venda de todos os agrotóxicos no Brasil. Vocês acreditam que a iniciativa está contribuindo para o avanço de tecnologias sociais de acesso à informação na questão alimentar? Que reflexões têm orientado a atuação da Agência Pública e da Repórter Brasil com esse tipo de frente? Quais estratégias são importantes no atual contexto de políticas de acesso à informação? 

Ana: Essa matéria, em especial, parecia um pouco fora de nosso perfil, por tratar de dados de um modo mais profundo e em menor diálogo com um público de interesse amplo. Apesar de todos os esforços que fizemos, como, por exemplo, cruzar essas informações com o que foi encontrado nos alimentos pela Anvisa, nós sabíamos que essa matéria tinha um limite em termos de alcance de leitura. No entanto, ela foi feliz em cumprir o seu objetivo central: pressionar por mudança. Neste caso, é muito importante ressaltar que a iniciativa não parte apenas da reportagem. A cobrança por transparência em relação a estes dados era um processo antigo, existente dentro da própria autarquia, onde era objeto de debate e tensões. Nosso papel foi dialogar com esses atores para avaliar qual o momento e forma ideal de ajudar a fazer pressão pela transparência. 

Além do objetivo central de informar, utilizamos a estratégia de dialogar com fontes da área para entender quais pontos merecem ser pressionados e em qual momento é fundamental para conseguir impacto positivo para nosso trabalho.

Ibirapitanga:  Sabemos que ainda tem um documentário e muita coisa por vir da iniciativa. Vocês podem nos dar um spoiler das principais próximas ações? 

Natalia: Um dos projetos que está em finalização é um mergulho interativo em uma base de dados inédita que obtivemos do Ministério da Saúde via Lei de Acesso à Informação no ano passado, com detalhes sobre todos os casos de intoxicações por agrotóxicos na última década. A base é tão rica que já publicamos uma série de reportagens com base nos dados, mas agora estamos preparando algo que vai dar um sentido maior a essas histórias e permitir que o leitor entenda como as intoxicações por pesticidas afetam a sua região. Além disso, vamos disponibilizar a base toda de microdados para ser baixada e explorada por pesquisadores, ativistas e outros jornalistas.       

Ana: Estamos animadas com o andamento do documentário. Não posso falar muito sobre ele, em respeito à segurança das pessoas envolvidas. Mas posso dizer que é um retrato intimista de brasileiros que estão aprendendo a reagir, com força e alegria, ao cenário de ampla intoxicação no campo. Sem se render ao gigantismo do desafio, mas sem se colocar em risco no processo. Lutar pela vida enquanto se respeita a sua própria saúde física e mental,  é o grande desafio da família que estamos acompanhando. Um desafio de todos nós neste momento.

No rastro dos agrotóxicos, estudos revelam impactos para os sistemas alimentares no Brasil

Esforços de pesquisa apoiam a contenção de retrocessos e fomentam o debate sobre sistemas alimentares more

Informações relacionadas em Doações