• Equidade racial
21.12.2020

Um olhar atento e diferenciado para a história do Brasil: Entrevista com Tiago Rogero

Créditos: Acervo pessoal de Tiago Rogero

Por Raphael Bandeira, Analista de Comunicação do Instituto Ibirapitanga

O Instituto Ibirapitanga entrevistou o jornalista Tiago Rogero, um dos idealizadores do projeto 22-22, que busca colaborar para o reposicionamento da escravidão e a contribuição afro-brasileira como aspectos centrais e fundantes do Brasil. Com o desafio de recontar esta história, o projeto multiplataforma está voltado à pesquisa e realização de um conjunto de conteúdos, reunindo pesquisadores, sob a coordenação da historiadora Ynaê Lopes dos Santos, junto à Rádio Novelo. 

Tiago Rogero é  apresentador do podcast Vidas Negras. Foi repórter de O Globo, O Estado de S. Paulo e BandNews FM. Vencedor do 42º Prêmio Vladimir Herzog (2020) com o Negra Voz, podcast narrativo lançado em 2019. Produziu, apresentou e editou o podcast, publicado por O Globo.

Como surgiu o projeto 22-22 e o que motivou sua criação?

Tiago Rogero: Em 2019 aconteceu a primeira reunião, com a Rádio Novelo, para conversar sobre ideias de um projeto de pesquisa multiplataforma que resgatasse a história da construção deste país, desde a chegada dos primeiros portugueses até hoje, a partir de um olhar voltado à historiografia negra.

Foram feitas reuniões com alguns especialistas para decidirmos quais seriam os eixos da pesquisa, a partir de uma “chuva de ideias” sob a supervisão da historiadora e consultora do projeto, Ynaê Lopes dos Santos.

Entre os participantes estavam, o historiador e especialista na área de educação e história da África, Rafael Domingos; a ativista pelos direitos da mulher negra e co-fundadora de Criola, Lúcia Xavier, e o dramaturgo e diretor teatral, Rodrigo França.

Uma parte considerável do trabalho foi traçar os temas, subtemas, bem como os eixos que norteiam o projeto Atualmente, estamos na fase de pesquisa bibliográfica e nos acervos disponíveis digitalmente, por conta da pandemia.

O que buscamos é unir dois braços: a historiografia e a comunicação, para estimularmos um olhar atento e, ao mesmo tempo, diferenciado, para a história do Brasil, pensando sobretudo na produção intelectual negra, considerando as enormes contribuições dos africanos e seus descendentes para a construção deste país e de praticamente todas as riquezas, sejam elas monetárias, físicas, materiais, intelectuais.

Há uma visão predominante na sociedade brasileira de que a escravidão é “coisa do passado, que já foi superada”. No entanto, sabemos que ela se expressa profundamente no presente. Quais os desafios de fazer esta conexão para o enfrentamento do racismo no Brasil?

Tiago Rogero: Vamos abordar estes resquícios da escravidão – que não dá nem para chamar de resquícios! Fazemos parte de uma sociedade que ainda tem elementos estruturais remanescentes da escravidão, chamar de resquícios seria colocá-los como uma coisa menor, como se fosse algo pequeno e que se vê pouco. Na verdade, vemos que a sociedade brasileira ainda é resultado estrutural direto das escolhas de um país que manteve a escravidão até o último momento possível e, mesmo depois que ela foi proibida, ainda houve um esforço em mantê-la viva de várias formas.

O projeto vai abordar este assunto de frente. Além de reconhecer e evidenciar essas permanências, buscamos fazer isso de maneira “didática”, (entre muitas aspas) porque não queremos adotar uma linguagem “professoral”. Por isso, achamos importante usarmos toda a enorme base de conhecimento que a historiografia pode nos dar, somando-se a especialistas em comunicação, para que a mensagem alcance o maior número de pessoas.

Vamos tratar destes temas de forma direta, porque é possível fazer uma comunicação respeitosa, ética, historicamente correta e atraente e é sobre isso que o projeto está focado e vai se debruçar nos próximos meses.

Após o processo de escravização, as pessoas negras foram lançadas na sociedade, sem nenhuma política em seu benefício. Isso abre para pensarmos sobre as estratégias de sobrevivência da população negra, ao longo de todos estes anos. Essas estratégias serão abordadas no projeto 22-22?

Tiago Rogero: Não precisa de muito letramento racial para ter compreensão de que essas estratégias foram e são determinantes para a sobrevivência da população negra. Mas, no Brasil, a regra é que as pessoas tenham pouquíssimo letramento racial e até mesmo baixo interesse por essas questões. No geral, tratam como um assunto menor, adotando a expressão irônica e altamente negativa, que é o “mimimi”.

Então, o primeiro passo é reconhecer, reforçar e mostrar de que forma essas estratégias foram fundamentais, por meio das associações entre pessoas negras, exemplo de comunidade e genialidade. Porque estamos falando de um país que escravizou pessoas negras por mais de 300 anos e, além de não possibilitar que essas pessoas pudessem ser de fato inseridas na sociedade, o Brasil fez um esforço muito grande para que elas sumissem do país, através de embranquecimento, incentivos a imigração de europeus e criminalização do povo negro. E houve também o Congresso de raças em 1911, quando o governo brasileiro propôs como meta a extinção da raça negra, em 100 anos.

O projeto quer valorizar a genialidade deste povo que, ainda assim, consegue produzir conhecimento, afeto e construir um país, carregando o Brasil nas costas. Isso tudo não seria feito sem inteligência e conhecimento.

Edson Cardoso, professor e editor do jornal Ìrohìn, afirma que conhecer essas estratégias de sobrevivência é o grande tesouro da sociedade brasileira, pensamento que tem inspirado a atuação do Ibirapitanga. Quais os desafios de produzir o projeto 22-22, num país onde parte da história das pessoas negras sofreu um apagamento na construção da memória social?

Tiago Rogero: Sobre esta frase do Edson Cardoso, acho interessante que ela conversa de uma forma muito bonita com o que Milton Santos dizia, que o Brasil tem um potencial muito grande, pelo fato de que as pessoas pobres apresentam um maior potencial de revolução, devido à experiência de escassez, que constrói a possibilidade de recriar o mundo.

E em nenhum momento ele romantiza a pobreza, mas reconhece o quanto a população negra precisa ser criativa para conseguir se reinventar e se manter viva. Inclusive, se manter vivo no Brasil, para as pessoas negras, se prova cada vez mais como algo revolucionário.

É sabido que, em termos de documentos historiográficos, é difícil ter acesso às informações, por conta de uma série de motivos, desde o fato de que as pessoas chegavam aqui e eram obrigadas a mudar os próprios nomes e a falarem outros idiomas e também devido à perda definitiva de uma parte considerável dos arquivos relacionados à escravidão, que foram literalmente queimados, sob a ordem de Rui Barbosa. Mas, por outro lado, há duas coisas importantes a serem trazidas: ainda há uma parte de documentos registrados e disponíveis em cartórios e igrejas.

Outro ponto é que, graças às políticas afirmativas, de uns anos para cá, mais pessoas negras acessaram a academia, mais pessoas negras se formaram pesquisadoras e, consequentemente, muita informação tem sido descoberta nos últimos anos, o que vemos em teses e dissertações recentes. Então, isso é um lado positivo.

É óbvio que a gente queria muito mais informação do que temos disponível, até mesmo sobre os nomes que já conhecemos. Queremos saber ainda mais sobre Teresa de Benguela, por exemplo, ou sobre o próprio Zumbi – que já é um nome muito falado — mas dado o que a gente tem, eu prefiro olhar pelo lado positivo, principalmente sobre os ganhos das políticas afirmativas dos últimos anos.

Cientes de todas as dificuldades e de estarmos num contexto de pandemia, em que alguns arquivos estão fechados, ainda é possível – e é nisso que acreditamos – encontrar boa parte dos relatos. Sobretudo partindo do olhar de uma equipe formada majoritariamente por pessoas negras, além de serem profissionais de atuação reconhecida em suas áreas, porque essa é também a pré-condição do projeto: a ideia de nada mais sobre nós, sem nós.

O podcast “Vidas Negras” retrata a história negra a partir de um resgate da memória que envolve a representação simbólica nas artes, música e literatura. Considerando também a sua experiência no podcast Negra Voz, o que você colocaria como importantes aprendizados da caminhada até aqui? E em que medida tais projetos dialogam com o 22-22?

Tiago Rogero: A experiência tem sido incrível. E é difícil classificar o que eu tenho aprendido, tanto no processo de pesquisa, quanto no roteiro.

O Vidas Negras foca, sobretudo, nas pessoas, perfila, narra detalhes e expõe ao máximo as visões de mundo de personagens que não estão mais entre nós e aqueles que fazem parte do nosso contemporâneo, mostrando de que forma eles se expressavam e expressam por meio da arte, do trabalho e da intelectualidade.

Os projetos conversam entre si porque tentam trazer um olhar diferente para o nosso passado. Enfim, como aquele significado de Sankofa mesmo, tentar olhar para o passado, trazer para o presente e ressignificar no futuro. É bem a base dos dois projetos, embora eles sejam diferentes nas formas e também no que se espera de resultados, eles caminham muito juntos.

É muito enriquecedor para o 22-22 que eu esteja no projeto paralelo (Vidas Negras) de uma pesquisa tão profunda sobre estas personalidades, porque além de serem pessoas que fizeram parte da nossa história, acrescentam visões e conhecimentos que faltavam sobre diferentes momentos da história. Eu acho que é bastante interessante poder conduzir estes projetos paralelamente, tem sido enriquecedor, mesmo. E acho que para o resultado final dos dois, será rico também.

Você já parou para pensar nos resultados a partir das pessoas recebendo esses diferentes conteúdos?

Tiago Rogero: Sim, o que mais me dá prazer é o resultado que as pessoas me contam, por exemplo, no Vidas Negras, tivemos um primeiro episódio muito focado nessa questão de sabermos tão pouco sobre as nossas origens, sobre os nossos antepassados, nós enquanto pessoas negras nascidas no Brasil.

Eu tive muitos retornos de pessoas que começaram a olhar para a própria casa de maneira diferente, de buscar informações dentro da própria família, de conversar com os mais velhos.

Porque é isso, por termos pouco acesso a essas informações e documentos, uma forma de buscarmos, é por meio da história oral. Uma forma muito especial de nos conectarmos com os nossos antepassados africanos. Porque no continente africano, de uma forma geral, embora generalizações nunca sejam boas, tem essa tradição muito forte da história oral. Importante pensar que este conteúdo toca as pessoas, move emoções e pensamento.

O 22-22 recria olhares para desconstruir narrativas que foram criadas de uma maneira racista. Existe uma produção intelectual negra considerável no fim do século XIX e início do século XX e o projeto quer olhar para estes acontecimentos e trazer os pontos de vista das pessoas negras, que estavam naquele plano de fundo, observando toda a intelectualidade produzida.

Porque o que a gente tem no geral, são olhares de pessoas brancas sobre os acontecimentos de nossas histórias.

Queremos expor as percepções das pessoas negras daquela época, sob o olhar de pesquisadores negros contemporâneos. E é este o resgate que o projeto também quer fazer.

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