20 de novembro destaca o protagonismo negro contra o racismo no Brasil

Mayara Ferrão

20 de novembro destaca o protagonismo negro contra o racismo no Brasil

Em 2021 completam-se 50 anos da criação do 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra no Brasil. A data destaca o protagonismo da resistência negra e é um dos símbolos mais importantes dos movimentos antirracistas no Brasil.

Fruto de extenso e intenso trabalho de movimentos negros em torno do resgate e afirmação de seu protagonismo sobre sua própria história e memória, foi na década de 2010 que essa data ganhou o reconhecimento oficial, estabelecendo-se o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra.

A ideia de criar um marco simbólico partiu de quatro universitários negros que fundaram o Grupo Palmares, no Rio Grande do Sul. Em 1971, o então estudante Oliveira Silveira, levou a proposta do 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, aos amigos Vilmar Nunes, Ilmo da Silva e Antônio Carlos Côrtes. A proposta se tornou o marco escolhido pelo Grupo Palmares, que se dedicou a estudos de história e arte sobre o papel dos negros no Brasil.

A concepção e difusão dessa data carrega um importante valor – o protagonismo negro em seu próprio processo de libertação da escravidão – ao resgatar a memória de Zumbi e, com ele, das negras e negros que resistiram por quase um século no Quilombo dos Palmares, o maior do Brasil. 

Após a iniciativa do Grupo Palmares, a data passou a ser marcada por ações dos movimentos negros em diferentes lugares do Brasil, sendo adotada nacionalmente pelo MNU – Movimento Negro Unificado em 1978. 

À luz do chamado do 20 de novembro, movimentos negros têm atuado e conquistado diversos avanços, a exemplo da Lei de Cotas, da Lei 10.639, bem como da ampliação da inserção da pauta étnico-racial em espaços de decisão e de poder.

No entanto, também em 2021, o triste marco de um ano do assassinato de Beto Freitas, homem negro, em uma filial gaúcha do Carrefour, na véspera do Dia da Consciência Negra, reafirma a tônica  de que evocar e atuar a partir da perspectiva de luta que o 20 de novembro traz, é uma tarefa diária, ao longo de todo ano. 

Importantes mobilizaçãos dos movimentos negros ocupam esta data, mas trazem também a reflexão de que a morte de Beto Freitas não é um caso isolado e que não deve ser analisado de uma maneira individualizada. Os assassinatos endereçados a pessoas negras resultam de um projeto genocida que estrutura as relações raciais no país. 

A despeito do genocídio negro direto e indireto, as respostas a esse cenário não se traduzem em um real esforço de valorização de vidas negras na sociedade brasileira, o que pode ser observado, sobretudo, na naturalização das mortes dessa população.

O Dia Nacional da Consciência Negra e seu acúmulo ao longo de 50 anos demandam, no cenário atual, um comprometimento de ação por toda a sociedade brasileira, incluindo pessoas brancas, no impulsionamento do protagonismo e ampliação da presença negra, bem como na defesa e garantia de direitos humanos para esta população, tendo como horizonte o fim do racismo.

Afirmar a Consciência Negra revela o engenhoso e minucioso esforço de movimentos negros, abarcando a transformação da percepção sobre negritude, o resgate da memória e resistências negras, bem como um lugar de pensamento e produção de conhecimentos que propõem e reivindicam outra estruturação social. Enquanto  ambiente de reflexão e ação, a Consciência Negra também se configura como um recurso dinâmico, em que a história é revisitada, mas também recriada a partir do presente povoado pelos movimentos em torno da questão racial, no tecer de futuros possíveis.

Há uma necessidade de inflexão do cenário que só poderá se realizar a partir da responsabilidade e ação de pessoas brancas de forma engajada no antirracismo, sempre a partir do apoio ao protagonismo e ocupação negra nos espaços de decisão considerando sua proporção como maioria da população no Brasil.

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