Mulheres negras e periféricas no fortalecimento de suas memórias e narrativas

Créditos: Divulgação Nós, mulheres da periferia

O trabalho de resgate e manutenção da memória é tanto demanda quanto recurso central dos movimentos negros no combate ao racismo. É nessa dimensão de (re)encontro com o repertório simbólico que se faz vivo entre passado, presente e futuro, que a população negra e periférica encontra fonte de resistência, ao passo que oferece a toda sociedade a riqueza de suas perspectivas como novas possibilidades de ser e estar no mundo — para além das violências que o racismo historicamente impôs, mas ainda reconhecendo e denunciando sua permanência.

Dentro desses esforços de centralização da memória, encontramos no pensamento e ação de mulheres negras e periféricas um impulso particular e fundamental, especialmente quando olhamos para a construção e disseminação de narrativas. Conheça três organizações apoiadas pelo Instituto Ibirapitanga que nos ensinam sobre diferentes estratégias para impulsionar e fortalecer memórias e narrativas negras e periféricas por meio da intersecção com gênero.

Casa Escrevivência Conceição Evaristo

Criada em 2023, a Casa Escrevivência Conceição Evaristo é voltada à preservação da memória e difusão de conhecimento afro-brasileiro e afro-diaspórico, presentes nos acervos da escritora brasileira Conceição Evaristo. A organização nasceu com duas questões de fundo. Por um lado, a inquietação da escritora que dá nome à casa por dar vida aos livros de sua estante, ao disponibilizá-los para leitura e pesquisa. Por outro, a observação e constatação do baixo investimento em acervos de outras intelectuais e ativistas negras que tornaram mais difícil seu acesso ao público.

A ideia de organizar o acervo de Conceição Evaristo foi impulsionada também pelas crescentes pesquisas e apropriações do conceito de “escrevivência”, cunhado pela escritora, que ganharam espaço para além dos estudos literários, em áreas como educação, psicologia, artes, arquitetura, saúde, entre outras. Seja chegando às mãos da escritora ou em profusão na internet, diversos trabalhos em torno do conceito vêm resultando em monografias, dissertações, teses, antologias críticas, entre outros. Assim, enfrentando a histórica invisibilização das contribuições intelectuais de mulheres negras, a obra de Conceição Evaristo junto às de suas pares, passa a ganhar amplitude como suporte teórico para diversos estudos. 

Desde 2023, com o apoio do Ibirapitanga, a Casa Escrevivência Conceição Evaristo se voltou à organização e gerenciamento do acervo bibliográfico e de objetos especiais da escritora, para viabilizar a pesquisa sobre seu trabalho. Por meio desta iniciativa, a Casa Escrevivência Conceição Evaristo atua com instituições de educação e cultura no cenário literário brasileiro e no turismo, devido à localização da sede da organização na Pequena África, na zona portuária da cidade do Rio de Janeiro.

Em seu primeiro ano de atuação, a Casa Escrevivência Conceição Evaristo já vem desenvolvendo sua capacidade de articulação e realização institucional. Em março de 2023 passou a compor oficialmente o Comitê Gestor do do Sítio Arqueológico Cais do Valongo, instrumento estabelecido pelo Iphan — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional para uma gestão compartilhada e participativa do sítio. Em julho de 2023, realizou uma programação de três dias de inauguração da atual sede da organização, incluindo ações online, na Casa Rui Barbosa, e culminando com uma sessão de autógrafos com a escritora que dá nome à organização, na porta da Casa Escrevivência Conceição Evaristo. Já nesse ano de 2024, a organização segue na realização de parcerias que mostram passos firmes na direção de seu propósito, a exemplo do lançamento da Cátedra Pequena África, iniciativa da FGV — Fundação Getúlio Vargas, que encontra abrigo na Casa Escrevivência Conceição Evaristo, com apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro. Com o objetivo de promover visibilidade e aprofundamento aos estudos das produções teóricas de pensadores negras/os, valorizando a pluralidade dos saberes, o programa tem como catedráticas convidadas para o seu primeiro ano Inaicyra Falcão, professora e cantora lírica; Leda Maria Martins, poeta, ensaísta, acadêmica e dramaturga; e Rosana Paulino, artista plástica.

Instituto Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras 

O Instituto Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras é uma organização voltada à valorização, circulação e publicação da produção intelectual, tendo como foco os debates raciais protagonizados pelas contribuições, pesquisas e ativismos de mulheres negras. A organização se dedica à realização e produção de atividades no campo das artes negras, incluindo a edição de livros, como forma de fortalecimento e fomento aos registros da memória negra na Diáspora Africana. Atua como importante mobilizadora de manutenção e fomento da memória negra em diáspora.

A organização nasceu a partir de Casa Insubmissa de Mulheres Negras, iniciativa realizada desde 2017, que se propôs a criar uma cena de debates, especialmente em feiras literárias, sobre a violência contra as mulheres negras, incluindo como perspectiva suas insubmissões, por meio de reflexões suscitadas pela obra “Insubmissas lágrimas de mulheres”, de Conceição Evaristo. De lá para cá, a organização soteropolitana vem construindo sua trajetória de incentivo à leitura e fomento à produção de crítica literária negra, atuando também no mercado editorial com a Editora Diálogos Insubmissos, em atividades de recepção de textos de autoras negras em escolas públicas estaduais na Bahia com o selo literário Dialoguinhos, que promove, valoriza e visibiliza a produção literária infanto-juvenil produzida por mulheres negras no Brasil. 

Em seus sete anos de existência o Instituto Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras atua em parceria com diversas organizações baianas de ativismo nas artes negras, particularmente no campo literário, como o Slam das Minas Bahia, Slam Pandemia Poética, Lendo Mulheres Negras, Coletivo Zeferinas, Andarilha Edições, entre outras organizações.

Com apoio do Ibirapitanga desde 2023, o Instituto Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras se dedica ao seu fortalecimento institucional, para sua atuação nos setores de artivismos, educação e editorial. O último ano da organização contou também com a realização da primeira publicação internacional da Editora Diálogos Insubmissos, em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo e Odara — Instituto da Mulher Negra, organização também apoiada pelo Ibirapitanga. Lançado em outubro de 2023 na Casa Insubmissa de Mulheres Negras na Flica, o livro “30 anos tecendo a Red de Mujeres Afrolatinoamericanas, Afrocaribeñas y de la Diáspora” celebra os 30 anos do Dia internacional da mulher negra, latino-americana e caribenha.

No dia 6 de abril de 2024, será realizada a inauguração da sede do Instituto Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras, que contará com vivências com docentes, lançamento da versão impressa do livro Slam Insubmisso — edição especial Autoras Nordestinas, e o Baile Insubmisso. Após a inauguração do espaço estão previstas atividades para a comunidade do bairro em que fica a sede, no Garcia, em Salvador (BA), marcado pela efervescência cultural e por uma população majoritariamente negra.

Nós, mulheres da periferia 

Nós, mulheres da periferia é uma organização que atua no registro jornalístico a partir da ótica de mulheres negras e periféricas, sistematicamente excluídas dos debates públicos em esfera nacional. A organização tem como objetivo ampliar o número de mulheres jornalistas, em especial negras e periféricas, exercendo posições de liderança em suas redações, para contribuir nacionalmente com uma comunicação antirracista, antipatriarcal e que reposicione a periferia no imaginário da sociedade brasileira, enquanto protagonista de sua história.

A criação da organização foi inspirada pela repercussão de um artigo intitulado “Nós, mulheres da periferia”, que as fundadoras escreveram a convite do jornal Folha de S. Paulo, em 2012, compartilhando as histórias de suas mães, tias, amigas, vizinhas, o que gerou seu auto-reconhecimento como parte de um movimento emergente. Dois anos depois, em março de 2014, o Nós, mulheres da periferia nasceu oficialmente, com o intuito de contribuir para a construção de narrativas jornalísticas a partir da intersecção entre gênero, raça e classe, tendo as periferias como contexto.

Ao longo de seus 10 anos de existência, para além da expansão de seu portal, a organização vem navegando em diferentes mídias e plataformas, a exemplo do podcast Conversa de Portão, eleito pelo Spotify um dos lançamentos mais ouvidos de 2020 e vencedor do Prêmio 99 de Jornalismo em 2021; da exposição QUEM SOMOS [POR NÓS], que usou a fala das mulheres como elemento artístico a partir de oficinas em diferentes bairros das periferias de São Paulo; e do documentário Nós Carolinas, que traz as vivências e vozes de quatro mulheres que moram em diferentes bairros da cidade de São Paulo. Acumulando diversos reconhecimentos pelo seu trabalho, em 2022, o Nós, mulheres da periferia recebeu o Selo Municipal de Direitos Humanos e Diversidade, na categoria “Transversalidades”, pela série Mulheres que lutam por memória, verdade e justiça ontem e hoje, uma parceria com o Instituto Vladimir Herzog, disponível no portal Memórias da Ditadura, que difunde a história das mulheres que atuaram pelo direito à memória, à verdade e à justiça em relação à violência de Estado no período pós-redemocratização.

Com apoio do Instituto Ibirapitanga desde 2020, a organização conduz atualmente a iniciativa “Nós: mulheres que contam o mundo”, voltada a formação de profissionais para o desenvolvimento e incorporação da linguagem audiovisual em suas plataformas digitais.

Por meio da iniciativa em curso desde 2023, o Nós, mulheres da periferia conseguiu aumentar sua produção audiovisual, sobretudo nas redes sociais, por meio de reels do Instagram e de conteúdos no TikTok, plataforma em que a organização passou a atuar para alcançar mulheres jovens negras das periferias. Com a experiência no TikTok, a organização também passou a alcançar novos territórios, como Brasília, Belo Horizonte e Fortaleza, bem como outros países, como Angola, Estados Unidos e Portugal.

Entre 2023 e 2024, concomitantemente à expansão de seus conteúdos audiovisuais, o Nós, mulheres da periferia seguiu no aprimoramento de seu portal, também com a continuidade de sua amplitude editorial, que abarca desde assuntos do cotidiano e da cultura relacionada à realidade de mulheres da periferia até especiais que qualificam o debate público a partir das narrativas diversas negras, femininas e periféricas, como os casos das reportagens Cárcere e literatura, 10 anos da PEC das Domésticas: como ficam os direitos das diaristas?, Mulheres do Cerrado lutam por “saborania” e soberania alimentar e América Latina e Caribe: aprendizados com países que descriminalizaram o aborto.

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