Mulheres que pautam sistemas alimentares

| Supermercados têm ano dourado durante a pandemia em meio à insegurança alimentar e incertezas para trabalhadoras Créditos: Juliana Pesqueira / Amazônia Real

A comunicação é uma importante ferramenta na defesa e promoção de sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis. Considerando o modelo industrial e financeiro sobre o qual o sistema alimentar se organiza hegemonicamente, a comunicação tem também um papel chave no estímulo a práticas de consumo de produtos danosos à saúde humana. A indústria alimentícia opera um sistema com profundos impactos socioambientais, tendo nas diversas estratégias de comunicação um processo de padronização para perpetuação deste modelo.

A sociedade civil organizada em torno da questão alimentar vem desenvolvendo e realizando iniciativas de comunicação voltadas a promover informações confiáveis sobre a realidade e contradições do sistema alimentar no Brasil.

Na linha de frente e liderança desses esforços, a atuação feminina é notável, mostrando que para além de protagonistas em iniciativas diversas, as mulheres pautam cada vez mais a comunicação sobre alimentação no Brasil.

Quatro iniciativas apoiadas pelo Instituto Ibirapitanga são exemplos deste processo, realizadas por Agência Pública e Repórter Brasil, Gênero e Número, Agência Bori, e Bocado.  

Uma parceria entre as agências de jornalismo investigativo – Agência Pública e Repórter Brasil – conduz o projeto “Por Trás do Alimento” na produção de uma cobertura dedicada, principalmente, a revelar as causas, processos e consequências do uso indiscriminado de agrotóxicos. Liderada por duas mulheres, Ana Aranha, coordenadora de projetos especiais da Repórter Brasil, e Natalia Viana, codiretora e editora da Agência Pública, a iniciativa inclui reportagens aprofundadas, apurações e cruzamentos de dados inéditos sobre o tema. Para isso, as duas agências realizam investigação sobre falhas na política regulatória de agrotóxicos no Brasil; acompanhamento dos processos de divulgação de dados, revisão de agrotóxicos aprovados e liberação de novos produtos pela Anvisa; bem como produzem relatos sobre casos de contaminação que afetam diretamente trabalhadores rurais e comunidades do campo.

No último ano, a parceria foi responsável por uma série de ações que contribuíram para expor conflitos de interesses na atuação de instituições governamentais, a indústria alimentícia e o agronegócio. A investigação sobre o Paraquate, agrotóxico que tem data para ser banido no Brasil, revelou os esforços de fabricantes e produtores rurais junto à Anvisa para adiamento e suspensão da proibição. Os esforços envolviam reuniões e condução de pesquisas que apresentam falhas, para justificar a permanência da liberação do agrotóxico. A partir da investigação de “Por trás do alimento”, o Comitê de Ética da Unicamp suspendeu a autorização para realização de uma das pesquisas. Entre uma série de outras investigações, estiveram também a cobertura sobre importação de agrotóxicos altamente tóxicos de empresas que se utilizam da regulamentação permissiva no Brasil para vender produtos que foram proibidos em seus países de origem; bem como cobertura sobre a liberação recorde de agrotóxicos durante a pandemia.

O contexto da pandemia é o foco de outra iniciativa, conduzida pela Gênero e Número, por meio da liderança de três integrantes da equipe totalmente feminina da organização – Giulliana Bianconi, cofundadora e diretora, Maria Martha Bruno, diretora de conteúdo e Flávia Bozza Martins, pesquisadora e analista de dados. Por meio da cobertura “Cenários e possibilidades da pandemia desigual em gênero e raça no Brasil”, a Gênero e Número está produzindo e publicando dados qualificados e contextualizados, com dois focos – trabalho doméstico e o olhar ampliado sobre os cruzamentos entre a desigualdade de gênero e sistemas alimentares.

No segundo tema, a primeira investigação do especial aborda o ano dourado dos supermercados no Brasil, em que, apesar da pandemia, o lucro do setor aumentou, chegando a 58,5% a mais apenas em uma das redes. E vender mais não significa que mais pessoas estão comendo e comendo melhor. Na matéria, a Gênero e Número traz depoimentos de mulheres do setor, maioria entre os trabalhadores de comércios e mercados. Ainda que os supermercados tenham atingido este aumento na margem de lucro, os depoimentos explicitam que isso não implicou em melhores condições ou maior segurança no trabalho para funcionárias/os destes estabelecimentos. Também na contramão do superfaturamento, a investigação mostra o aumento da insegurança alimentar para mulheres pobres, em especial negras e indígenas. Por meio da iniciativa, a organização de mídia independente coloca à disposição da sociedade civil organizada sua expertise na produção de referência que apresenta conceitos, dados e casos da questão alimentar no contexto da pandemia.

Lançada em 2020, a rede Bocado também vem fazendo um aprofundado trabalho de cobertura sobre as contradições e conflitos de interesses dos sistemas alimentares na América Latina, incluindo o contexto da pandemia, entre diversos outros temas abordados. Voz importante no jornalismo contra-hegemônico sobre alimentação, Soledad Barruti é uma das lideranças que conceberam Bocado, cuja atuação chave permitiu a expansão das abordagens de cobertura da rede na região. A rede latino-americana de jornalismo de “investigações comestíveis” tem como objetivo evidenciar estratégias compartilhadas de corporações ou governos que atuem na contramão da alimentação adequada e saudável. 

Com coberturas sobre diversos temas, a exemplo da série de reportagens sobre filantropia empresarial em tempos de pandemia e da investigação sobre criação de porcos em confinamento, envolvendo colaboração de vídeos por pessoas de diferentes lugares da região, Bocado vem comparando realidades comuns, para ressaltar semelhanças, diferenças e fomentar redes entre pessoas e organizações da América Latina. Essa atuação também teve como resultado a articulação com veículos republicadores na região, a exemplo de Anfibia e Mu, na Argentina, Pie de Página, DataLab e Kaja Negra, no México, Contracorriente, em Honduras, Brasil de Fato e Alma Preta, no Brasil.

Nestes tempos em que a confiabilidade e qualidade da informação são ameaçadas, a Agência Bori surgiu para construir pontes fundamentais entre comunicação e ciência. Liderada por Ana Paula Morales e Sabine Righetti, co-fundadoras e diretoras, a iniciativa é voltada à promoção da cultura científica no Brasil a partir da aproximação entre as instituições de pesquisa e a produção de ciência no país e os profissionais do jornalismo. Recentemente, a Agência Bori se voltou à criação de área específica de atuação em sistemas alimentares. A iniciativa busca criar bases de dados que viabilizem a consulta rápida a informações especializadas sobre produção científica neste campo, gerando insumos para o trabalho da imprensa.

O protagonismo das mulheres nas iniciativas de comunicação em torno dos sistemas alimentares revela a potência que  suas perspectivas, particulares e diversas, têm de pautar e visibilizar questões chave para a transformação de uma realidade alimentar que impacta o meio ambiente e adoece as pessoas. Com a mesma intensidade, aponta caminhos de inovação nas estratégias de comunicação para enfrentar um desafio sistêmico que tem nesta ferramenta um ponto de disputa narrativa crucial.

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