Outros sistemas alimentares: o trabalho interseccional da Cese entre gênero, raça e território

Créditos: Cese direitos

Um dos seis biomas do Brasil e o segundo maior da América do Sul, o Cerrado sofre intensa pressão do agronegócio, em especial na região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), com o uso indiscriminado de agrotóxicos, expansão da pecuária, da mineração e com o desmatamento. As consequências sociais e ambientais desse modelo de produção e consumo, que engloba o sistema alimentar vigente, recaem sobre o cotidiano de pessoas negras, povos indígenas, juventudes e mulheres, mais particularmente impondo obstáculos à sua autonomia econômica e resultando em insegurança alimentar.

Na linha de frente do enfrentamento a esse cenário estão as mulheres em sua diversidade — negras, quilombolas, ribeirinhas, indígenas, atingidas por barragens, entre tantas. Nesse sentido, a publicação Racismo e sistemas agroalimentares, realizada pela Cese – Coordenadoria Ecumênica de Serviço, é precisa em declarar como fundamental “o reconhecimento da contribuição das mulheres na promoção da agroecologia em seus territórios e sistemas agrícolas”.

O documento adiciona que “são elas as responsáveis pela reprodução social dos conhecimentos ancestrais e tradicionais de manejo e uso da biodiversidade de sementes, animais, plantas medicinais, que são repassados às futuras gerações”.

Ressalta também que, além de seu papel muito conectado à manutenção da cultura alimentar, as mulheres são “as principais a resistir à adoção de pacotes químicos da agricultura convencional em seus territórios”.

A publicação tem autoria de Fran Paula, mulher negra, quilombola, pesquisadora em sistemas agrícolas tradicionais, racismo e sistemas alimentares; e é um dos desdobramentos da iniciativa “Partilhando saberes pelos caminhos do Cerrado”, conduzida pela Cese com apoio do Instituto Ibirapitanga, voltada ao enfrentamento ao racismo e fortalecimento dos sistemas alimentares junto a povos e comunidades tradicionais do Cerrado.

Completando 50 anos em 2023, a Cese é uma organização ecumênica de referência para a defesa dos direitos humanos, no enfrentamento às desigualdades de raça, gênero e classe. Contribui significativamente para o fortalecimento das organizações populares e movimentos sociais. Na sua criação em 1973, no auge da ditadura, a Cese afirmou o apoio a pequenos projetos como uma ação central, com o objetivo de melhorar as condições de vida do povo brasileiro e estimular sua participação efetiva nas lutas pela democratização do país. A partir dessa estratégia, a atuação da Cese está diretamente conectada com a viabilidade de desenvolvimento de movimentos nacionais importantes, a exemplo do MST — Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, MNDH — Movimento Nacional de Direitos Humanos e MNU — Movimento Negro Unificado. A Cese tem também uma presença significativa no mundo rural, apoiando desde o início experiências que hoje são referência na convivência com os biomas, a exemplo da Articulação no Semiárido, Campanha em Defesa do Cerrado, e Articulação das Mulheres do Cerrado.

Com experiência no trabalho interseccional a gênero e raça, a Cese conduziu projetos voltados ao direcionamento de apoios a mulheres negras e populares, a organizações quilombolas e aos movimentos negros de forma mais ampla. A organização também é referência em suas políticas internas de equidade de gênero e de equidade racial. Em seu histórico, a Cese firmou parceria com as principais redes e articulações nacionais que atuam nos movimentos negros, de mulheres negras e de movimentos do campo alimentar, estando presente em momentos históricos, a exemplo da criação, em 1998, do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar.

Ainda hoje como sua principal estratégia, o Programa de Pequenos Projetos, tem enquanto regiões prioritárias Centro-Oeste, Nordeste e Norte. O programa visa contribuir para a superação de fragilidades históricas identificadas junto a organizações, à medida que articula fortalecimento institucional de organizações de base e reforço às experiências agroecológicas com a discussão sobre equidade racial e de gênero. Esses esforços tem se desdobrado, na prática, em ações de geração de renda, de conservação das águas, das matas e da biodiversidade, de afirmação e valorização da identidade quilombola, da luta antirracista e do protagonismo das mulheres negras. São ações conjuntas que também visibilizam as lutas populares, como as Marchas das Mulheres Negras, das Mulheres Indígenas e das Margaridas.

Ao longo dos últimos quatro anos, a Cese vem fortalecendo espaços de reflexão, formação, realização de encontros e rodas de conversas sobre gênero, raça, sistemas alimentares, justiça climática e defesa de territórios, em que destacam-se a participação das mulheres e de pessoas negras. De acordo com a Cese, os relatos nos momentos de monitoramento e de formação indicam que a iniciativa tem possibilitado o fortalecimento das organizações das comunidades tradicionais nos seus processos de mobilização, de formação e em sua democracia interna, de forma articulada à maior participação das mulheres nos espaços de diálogos, formação e atuação pública. Olhando pelo prisma da segurança alimentar e nutricional e das práticas agroecológicas, a organização aponta a experiência de aumento da produção agroecológica das famílias para o autoconsumo e comercialização, bem como o enriquecimento de 25 agroquintais biodiversos em SAFs — Sistemas Agroflorestais.

Em algumas das experiências, os quintais se apresentam como espaços em que conhecimentos agropecuários tradicionais e científicos são articulados de forma a viabilizar o manejo do quintal por mulheres e jovens, servindo para resgatar a importância do quintal como espaço e território de domínio feminino e como alternativa de geração de renda e segurança alimentar.

O apoio do Ibirapitanga também possibilitou repasse de recursos para organizações apoiadas pela Cese, entre elas, organizações de mulheres como Associação de Mulheres Trabalhadoras do Coco Babaçu da Microrregião do Baixo Parnaíba Piauiense, Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Mato Grosso do Sul, Coletiva Pretas de Angola, Coletivo Dandaras, Coletivo Mulheres Negras de Cáceres, Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso e Mariana Crioula — Coordenação de Mulheres Quilombolas do Estado de Minas Gerais.

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