Palavras ancestrais: uma história sobre o Acervo Sagrado Afro-brasileiro

Yá Meninazinha de Oxum, 1ª Iyalorixá do Ilê Omolu Oxum | Créditos: Ian Cheibub

“30 anos eu falando sobre o Sagrado. 30 anos eu falando sobre as coisas nossas que estão nas mãos da polícia. Palavras da minha avó. A partir dessas palavras nós chegamos até aqui”1. Em declaração emocionada, Yá Meninazinha de Oxum, 1ª Iyalorixá do Ilê Omolu Oxum, refere-se ao momento da chegada do “Acervo Sagrado Afro-brasileiro” ao Museu da República, no Rio de Janeiro, no dia 21 de setembro de 2020.

A ocasião foi um marco vitorioso dos movimentos negros e de religiões de matriz africana. Remonta a uma história de violações de direitos, mas também de memória, ancestralidade, resistência e fé. 

Começa entre 1891 e 1946, quando mais de 500 objetos de religiões de matriz africana, especificamente de Candomblé e Umbanda, foram apreendidos pela polícia do estado do Rio de Janeiro. As violações ocorreram a despeito do fato de que, desde a Carta Constitucional de 1891, no Brasil República, já se estabelecesse o Estado laico e a liberdade de crença e culto. Em 1938, parte dessas peças formou um acervo tombado pelo então SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, em documento nomeado ”Coleção Museu de Magia Negra” a partir de uma lógica racista, que embasa a intolerância religiosa. 

Os objetos foram transferidos para o Museu da Polícia Civil do Rio de Janeiro e compuseram exposições organizadas para exibir materiais apreendidos por forças policiais, configurando um profundo deslocamento de seu sentido. Em 1999, quando a sede do Museu da Polícia foi transferida para outro prédio no centro carioca, todos os objetos do acervo foram guardados em caixas, com acesso impedido ou muito restrito a pesquisadores e à comunidade de povos de terreiros2.

Décadas de luta se seguiram com a reivindicação de movimentos da comunidade pela transferência das peças para outro espaço. Em 2017, sob a liderança de Ya Meninazinha de Oxum, foi formalizada a campanha “Liberte Nosso Sagrado” para atuar nesta reivindicação, reunindo movimentos negros, lideranças religiosas, artistas e pesquisadores. Foram realizados diversos encontros, que articularam o acionamento do Ministério Público, audiências públicas na ALERJ – Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e ações de diligência no Museu da Polícia Civil. 

Apenas em 2020, a longa caminhada para libertar as peças ganhou um novo momento com um acordo para sua transferência ao Museu da República, que envolveu a Secretaria de Estado da Polícia Civil, o Museu da Polícia, o Instituto Brasileiro de Museus, lideranças de religiões de matriz africana e os demais atores engajados na campanha “Liberte Nosso Sagrado”. No dia 7 de agosto de 2020, foi assinado o termo de cessão dos objetos sagrados e no dia 21 de setembro do mesmo ano, o acervo foi transferido para o Museu da República, contando com cerimônia simbólica reservada a representantes da comunidade dos povos de terreiro.

Por reivindicação da comunidade, o conjunto, que reúne atualmente 523 peças, passou a levar o nome “Acervo Sagrado Afro-brasileiro”. Sua transferência para o Museu da República foi apoiada pelo Instituto Ibirapitanga em projeto homônimo, por meio de uma parceria com a Quiprocó Filmes, outra importante articuladora da campanha “Liberte Nosso Sagrado”, que atua como administradora e mediadora desta doação. O projeto de transferência para o Museu da República busca garantir condições apropriadas à preservação, divulgação e acesso ao “Acervo Sagrado Afro-Brasileiro”, a partir da conservação, produção de instrumentos de pesquisa, de canais de comunicação e de sua exposição. 

Uma série de reuniões com lideranças de religiões de matriz africana precederam e referendam a incorporação ao Museu da República do “Acervo Sagrado Afro-Brasileiro”, que terá gestão compartilhada com essas/es representantes. O Museu da República foi selecionado como novo abrigo por sua função social, experiência e compromisso com a reparação de injustiças. 

A iniciativa está voltada a afirmar a força simbólica da religiosidade afro-brasileira como elemento central da cultura nacional. O próprio histórico que resultou na vitória, cuja luta passou por gerações de lideranças de terreiros, evidencia essa afirmação.

“Era uma ancestralidade. Era minha mãe que estava assinando. A gente estava ali fisicamente, mas acredito que ela estava ali enquanto ancestral, segurando minha mão e vendo o resultado tão bom pra todos nós. (…) É o compromisso que eu tenho com todas essas matriarcas, que elas não são somente de matrizes africanas, elas são de ‘motrizes’ africanas.”

Assim contou Babá Adailton Moreira de Ogum, Babalorixá do Ilê Axé Omiojuaro, ao lembrar da assinatura de dois documentos por ele e outras lideranças de religiões de matriz africana. Um dos documentos solicitou a mudança do nome da coleção e o outro cobrou medidas que visem garantir a cessão definitiva do acervo para o Museu da República.

A constituição do “Acervo Sagrado Afro-Brasileiro” é uma ação estratégica voltada à memória, que compreende que a herança africana deve ser respeitada, conhecida, valorizada e acessada pelas gerações futuras. 

Para assistir à história

A partir de sua participação da campanha “Liberte Nosso Sagrado” a Quiprocó Filmes realizou produções audiovisuais que contam a história dessa resistência.

Lançado em 2017, o documentário “Nosso Sagrado”, dirigido por Fernando Sousa, Gabriel Barbosa e Jorge Santana, está disponível na plataforma kweli.tv e parte da história de apreensão dos objetos sagrados para abordar a criminalização das comunidades tradicionais de terreiro e a perseguição de seus religiosos. Em novembro de 2020, a Quiprocó realizou a semana “Respeita Nosso Sagrado”, quando lançou vídeo homônimo que narra o processo de transferência do “Acervo Sagrado Afro-brasileiro”. Na mesma semana, a organização realizou a live “A trajetória da Campanha Liberte Nosso Sagrado”, com participação de Ya Meninazinha de Oxum, Babá Adailton Moreira de Ogum, Jorge Santana, da campanha “Liberte Nosso Sagrado”, e Fernando Sousa, diretor executivo da Quiprocó Filmes.

Notas

  1. As citações utilizadas nesta história foram extraídas do vídeo “Respeita Nosso Sagrado”, realizado pela Quiprocó Filmes. [voltar]
  2. “Terreiro” é um dos nomes mais utilizados pelas religiões de matriz africana para o local onde são realizadas suas reuniões, cerimônias e outras importantes atividades necessárias às práticas religiosas. [voltar]
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