Visões ameríndias e negras no campo do possível – diálogos a partir de Amefricanidades

Ato de guerrilha estética "Re-Existência Negrxs", do Coletivo Legítima Defesa, no Cais do Valongo, Rio de Janeiro, 2018 Créditos: Cristina Maranhão

A narrativa hegemônica sobre a construção da cultura e do território do Brasil foi escrita e vem sendo contada a partir da perspectiva colonial. Além de oferecer uma visão distorcida sobre a realidade, esse processo é responsável pela construção de uma memória seletiva e branca, que opera ativamente para omitir o protagonismo e diferentes perspectivas da história especialmente de pessoas negras e indígenas. Importante ferramenta para manutenção do racismo estrutural, a memória sobre a construção do Brasil e forma de contá-la precisa ser revisitada e questionada desde outros saberes, cosmovisões e experiências de territórios.  

Não há dúvidas de que é por seus sujeitos que essas narrativas devem emergir. Nesse sentido, o Coletivo Legítima Defesa, grupo de artistas, atores e atrizes de poética/política da imagem, vem desenvolvendo desde 2015 uma série de processos artísticos voltados à reflexão e representação da negritude. Em 2020, o coletivo deu um passo além, ao buscar o diálogo e conexão também com a experiência ameríndia, dando início ao projeto Amefricanidades, apoiado pelo Instituto Ibirapitanga por meio do Núcleo Corpo Rastreado.

A iniciativa é imaginada desde os primeiros anos do coletivo. Encontrou nos próprios processos de concepção, pesquisa e realização de outras ações poético-políticas do coletivo, bem como nas vivências de seus componentes, caminhos para se concretizar.

Amefricanidades, parte inicialmente da busca constante do Legítima Defesa para tentar entender formas de contar a história do território do Brasil evitando o viés colonizador. Nesse sentido, as primeiras reflexões que contribuíram para a construção do projeto atentavam para experiências subnotificadas de pessoas negras no mundo, a exemplo da Revolta dos Malês, em 1835, levante liderado por africanos muçulmanos pelo fim da escravidão de todos os africanos, e da Revolta dos Búzios, de 1798, movimento pela libertação de pessoas escravizadas e pela a instauração de uma República na Bahia com um governo igualitário.

O conceito de “amefricanidades”, cunhado pela intelectual negra brasileira Lélia Gonzalez, estava presente nas referências de integrantes do Legítima Defesa anteriormente à sua criação, e acompanhou-os durante suas produções. Para Lélia Gonzalez “amefricanidade” constitui-se enquanto uma categoria político-cultural, que versa sobre a experiência do território da América (Sul, Central, Norte e Insular), mas  transcende a visão geográfica e “incorpora todo um processo histórico de intensa dinâmica cultural (adaptação, resistência, reinterpretação e criação de novas formas)”1, especialmente da presença negra no território e suas interações. O pensamento de Lélia também se voltava particularmente ao questionamento e criação de outras lógicas para a linguagem, sua forma e possibilidades de produzir mudanças nas relações sociais.

A literatura de Lélia é utilizada para confrontar visões e paradigmas em uma das importantes ações do coletivo, o espetáculo “A Missão em Fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesa”, em que propõe a alteração de narrador e narrativa, de “A Missão – lembranças de uma revolução”, de Heiner Müller, para “defender a descolonização e a voz dos mortos, já que as causas que os mataram estão vivas”2. A experiência de “A missão” gera acúmulo ao processo “Black Brecht – E se Brecht fosse negro?”, pesquisa por meio de elaboração poética/política, a respeito da imagem da “negritude” e as construções históricas e sociais que têm reflexo sobre este conceito no campo artístico. 

O fim da pesquisa “Black Brecht” é o ponto de chegada da caminhada ao momento de “Amefricanidades”. A pesquisa levou o Legítima Defesa à ideia de trabalhar “A tempestade”, de Shakespeare, inspirados pela crítica de Aimé Césaire à obra, por sua narrativa sobre um naufrágio no Caribe que revela o projeto colonial europeu, funcionando como sua simbologia. Ao longo da história é apresentada a relação entre Próspero, representação do colonizador; Ariel, que não desejaria fazer a ruptura com o colonizador, e diria respeito à presença indígena, ameríndia; e Calibã, o ser que seria corrompido no corpo e no espírito – um ser negro. A obra contribui para revelar uma visão colonial distorcida da realidade ameríndia e negra, a partir de uma divisão entre seres “calibanistas” e seres “arianistas”.

Unindo as profundas reflexões de Aimé Césaire, de Lélia Gonzales e, certamente, de um rico legado ancestral para além desses, Legítima Defesa escolhe contar a história a partir da perspectiva desses dois grandes agrupamentos – povos originários do território da América e povos trazidos, africanos – bem como de seus descendentes. 

Eugênio Lima, integrante do coletivo e coordenador do projeto, afirma que a escolha foi por “(…) contar essa história em cima daquilo que nunca foi contado na perspectiva. Como foi que isso aconteceu do ponto de vista desses dois grandes agrupamentos?”

“E se realmente tiverem pontos de união que construíram não só a história de um país específico, mas de toda a América? Não reduzindo, mas tentando pensar: ‘Quais são as sabedorias escondidas sob as ruínas coloniais? (…) A gente queria investigar, quais são as alianças possíveis e, para construir aliança, é preciso ter prática.”

Dessa forma se desenvolveu o projeto Amefricanidades – espaço transversal de criação e reflexão de olhares possíveis sobre a sociedade brasileira, a partir das experiências negras e ameríndias. Amefricanidades está voltado a criar novas possibilidades de abordagem das representações sociais negras e ameríndias, no âmbito das linguagens artísticas e da história, escavando as narrativas que foram soterradas pelo legado colonial, a partir da criação de um vínculo entre o tempo dos ancestrais e o tempo atual. 

No processo de criação desse espaço, o Legítima Defesa encontrou desafios particulares em 2020. O projeto precisou ser reformulado para uma lógica online, o que não era trivial para a iniciativa que propõe o encontro de reflexões ameríndias e negras afirmando a presença de seus sujeitos por meio de processos artísticos. A partir de espaços de troca promovidos pelo Ibirapitanga com as organizações donatárias, o Coletivo Legítima Defesa retomou diálogo já existente com a Flup – Festa Literária das Periferias e conseguiu construir viabilidade para Amefricanidades, de uma forma que expandiu, inclusive, suas ideias iniciais.

O Legítima Defesa Colaborou com a Flup para homenagear Lélia Gonzalez em uma programação em que intelectuais indígenas e negras/os/es dialogam para trazer diferentes reflexões político-históricas, almejando uma interface entre cultura, arte e ciência – o que Lélia percebe como o “campo do possível”.

O projeto Amefricanicanidades estará em parceria com a Flup em dois momentos. No Ciclo Lélia Gonzalez da Flup 2020, em que compõe as programações dos dias 10 e 17 de outubro, com presenças de Célia Xakriabá, Rosane Borges, Raquel Barreto e Sônia Guajajara, bem como nos “Diálogos Amefricanos”, a serem transmitidos entre outubro e novembro.

Quanto à pergunta sobre as possíveis alianças, o próprio caminho de elaboração e organização de Amefricanidades até aqui, para Eugênio, foi um processo para sua construção. Ao compor uma programação que respeitasse essa premissa de um espaço transversal a partir das experiências e presenças concretas ameríndias e negras, intercambiando seus saberes, já está propondo um outro olhar sobre a sociedade brasileira, neste momento de intensa crise, perdas e desafios à essas vivências.

Notas

  1. GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. In: Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, nº. 92/93 (jan./jun.). 1988b, p. 76. [voltar]
  2. Descrição original no site do Coletivo Legítima Defesa [voltar]
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