Sistemas alimentares

O programa Sistemas alimentares tem como objetivo contribuir para a construção de sistemas alimentares saudáveis, justos e sustentáveis. A maneira pela qual a sociedade produz, distribui e consome alimentos tem profundo impacto na saúde das pessoas, nas relações sociais e no meio ambiente. Essas dimensões interagem e se reforçam, podendo contribuir tanto para a construção de um ambiente saudável, como para o aprofundamento da deterioração das condições de vida no planeta. Os sistemas alimentares são também produtores de cultura e de valor, o que permite transformar positivamente a relação da sociedade com culturas tradicionais e alterar os termos da distribuição de riqueza nas cadeias alimentares, prevenindo, assim, a erosão de padrões alimentares locais. O programa apoia iniciativas a partir de três linhas prioritárias:

Abordagens sistêmicas sobre alimentação

Um relatório global recente aponta de maneira contundente a coexistência e interação de três pandemias – obesidade, desnutrição e mudanças climáticas – que, juntas, passam a constituir uma sindemia global que afeta pessoas em todo o mundo. Problemas sociais dessa magnitude e complexidade exigem, por princípio, caminhos e soluções que apontem para sua natureza multidimensional, partindo de visões e abordagens sistêmicas, transdisciplinares e inclusivas.

O programa apoia iniciativas e organizações voltadas a criar, ampliar e aprofundar a reflexão sobre alimentação em uma perspectiva sistêmica, correlacionando as suas dimensões econômica, política, sanitária, ambiental, social e racial, no sentido de informar políticas públicas e estruturas institucionais para a garantia do direito humano à alimentação adequada e a promoção de sistemas alimentares justos, saudáveis e sustentáveis. Pesquisas, comunicação e ações que abordem os determinantes políticos, econômicos, raciais e sociais que incidem sobre os sistemas alimentares, com olhar para questões como o avanço da fome, a intersecção entre gênero e raça na questão alimentar, conflitos de interesses e monopólios corporativos no campo alimentar, reconhecimento e responsabilização sobre o custo real, socioeconômico e ambiental na produção de alimentos e suas externalidades e o aperfeiçoamento dos regimes tributário e regulatório no campo alimentar são exemplos de focos priorizados.

Alimentação e saúde

Em todo o mundo, milhões de mortes evitáveis são atribuídas a doenças crônicas não-transmissíveis relacionadas aos padrões alimentares não saudáveis, como doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes e câncer, que pressionam os sistemas de saúde e as economias. A má nutrição nas suas diferentes formas (obesidade, desnutrição, fome) é a principal causa da saúde precária no mundo, com altos índices de incidência que contrariam a melhoria histórica dos indicadores de saúde como expectativa de vida, mortalidade materna e infantil e mortes por doenças infecciosas. Incidem sobre dietas não saudáveis uma série de fatores culturais, ambientais e políticos, tais como o aumento de calorias provenientes de produtos ultraprocessados e consumo de alimentos contaminados por agrotóxicos – fertilizantes nitrogenados, pesticidas, herbicidas e outros aditivos químicos – cujos efeitos nefastos na saúde têm sido cada vez mais evidenciados em pesquisas científicas.

O programa apoia iniciativas e organizações voltadas a qualificar o debate público sobre a centralidade da alimentação na garantia da saúde da população e a incidir sobre medidas regulatórias e normativas que garantam ambientes alimentares promotores de uma alimentação saudável e adequada. Ações voltadas à elaboração e divulgação de pesquisas e à comunicação de evidências sobre o papel da alimentação na incidência da má nutrição, da obesidade e de doenças crônicas não transmissíveis, os efeitos do consumo de alimentos ultraprocessados, disseminação do uso de agrotóxicos e ações de incidência por políticas públicas de incentivo, apoio e proteção à alimentação adequada e saudável são exemplos de focos priorizados.

Transição para sistemas alimentares sustentáveis

A transformação dos sistemas alimentares dominantes passa pela reconfiguração das formas de produção e das estruturas de beneficiamento, distribuição e comercialização de alimentos. Cadeias alimentares que valorizem a biodiversidade, o fomento a circuitos curtos de produção e consumo de alimentos, relações justas de trabalho e o fortalecimento de dietas alimentares locais, capazes de centralizar o papel de pequenos produtores, povos e comunidades tradicionais, trilham caminhos para o enfrentamento simultâneo da crise climática e a má nutrição, contribuindo para a promoção de sistemas alimentares saudáveis, justos e sustentáveis.

O programa apoia iniciativas e organizações voltadas a estimular a transformação das formas de produção, beneficiamento, distribuição, comercialização e consumo de alimentos que promovam a agroecologia e sistemas alimentares saudáveis, justos e sustentáveis. Campanhas, articulação, mobilização e advocacy voltadas ao desenvolvimento de metodologias e soluções escaláveis de transição para modelos de produção sustentáveis, incidência por políticas de acesso de pequenos produtores, povos e comunidades tradicionais a crédito, mercados, assistência técnica e extensão rural, fortalecimento das dietas alimentares locais e fomento aos circuitos curtos de produção e consumo, pesquisas sobre inovação e novas tecnologias na produção e comercialização de alimentos e seus efeitos ambientais, sociais e na saúde humana são exemplos de focos a serem priorizados.